“Sou gay, não tem como eu ser preconceituoso”? “Amada”, sente aqui!

“Sou gay, não tem como eu ser preconceituoso”? “Amada”, sente aqui!

É muito comum quando a gente fica sabendo sobre um caso de preconceito contra a comunidade LGBTQIA+, a gente pensar: “Nossa quem foi o hétero escroto que fez isso dessa vez?” E quão grande não é nossa surpresa quando buscamos mais a fundo e em alguns (as vezes até muitos) desses casos, quem cometeu o ato preconceituoso foi alguém que está inserido na comunidade LGBTQIA+, e acreditem, isso infelizmente é até muito comum, quando se fala em preconceito contra as pessoas Trans, Travestis e Não-Binárias ou até mesmo quanto ao homem gay mais afeminado. Mas por quê isso acontece?

Existe um conceito chamado “Homofobia Internalizada” que pode de fato, explicar este tipo de comportamento, e quero deixar ressaltado aqui que pode explicar, sim pode, porém justificar jamais poderá. Voltando agora ao conceito em si, eu até poderia fazer uma mudança no termo oficial de “Homofobia Internalizada” para “Homofobia Enraizada”. Ficou se perguntando por qual motivo eu faria esta troca de termos? Pois bem, é sabido por todos, que a homossexualidade existe desde os primórdios da humanidade inclusive, ela também já foi observada em outras espécies de animais, além do ser humano, e por um longo tempo a homossexualidade foi tida como aceita, e em alguns casos até normalizada, assim como deveria ser até hoje.

No entanto, com a ascensão das religiões cristãs, e tomada do poder de decisões de “certo” e “errado” pelos líderes religiosos da cúpula cristã, principalmente a neopentescostal, a homossexualidade passou a ser tratada como doença, abominação, desvio de caráter, enfim, como um “pecado mortal”. Logo, com a hegemonia desse pensamento sendo difundido por todo o mundo, desde vários séculos atrás e de geração em geração, foi ensinado, na verdade até imposto, que o comportamento e a prática da homossexualidade era algo errado.

Até nos tempos atuais, em pleno século XXI, este ensinamento ainda é perpetuado em locais de culto e por pessoas que direta e indiretamente influenciam milhares de outras pessoas. Por esse motivo, eu digo que o preconceito contra pessoas que não seguem o padrão da sexualidade tida como “normal” que no caso por mais arcaico que possa parecer, ainda é a  heterossexualidade, é algo que está enraizado na sociedade, é como um vírus que se espalhou e mesmo com avanços, ainda não se consegue achar uma cura para este pensamento retrógrado que tem apenas a heterossexualidade como algo normal.

Depois desta pequena, digamos assim, aula de história, voltemos ao assunto principal deste artigo, “ Eu sou gay, não tem como eu ser homofóbico” ( vale ressaltar que quando eu uso o termo homofobia e suas variações, eu estou me referindo a todo tipo de preconceito relacionado a pessoas que se identificam com qualquer uma das letras da sigla da comunidade LGBTQIA+),  está é uma falácia que mexe e vira nos deparamos com ela, pela internet e até em alguns casos grandes influenciadores digitais com milhares de seguidores, reproduzem isso. Mas como assim, então quer dizer que a pessoa pode pertencer a comunidade e ainda assim cometer atos preconceituosos?

Veja bem, apesar de o cenário estar mudando e nós já conseguirmos ter um pouco de fé nas gerações futuras, imagina você que é dos anos 70,80, 90 e até mesmo do inicio dos anos 2.000, crescer ouvindo que ser gay  é uma doença, ou que você, no caso se vier de família cristã, ouvir todos os dias que pessoas homossexuais ou que possuem uma sexualidade diferente da heterossexual, vão para o inferno e que Deus não as ama! A pessoa cresce e entende que é exatamente a “aberração” que ela sempre ouviu as pessoas ao seu redor abominar. Até ela se aceitar e ver que não há nada errado será um processo lento e doloroso.

Ainda temos também aquelas falsas aceitações que sempre vêm acompanhada de “ seja gay, mas seja homem”, “seja gay, mas não vire mulherzinha” e a mais clássica de todas, que é: “você pode ser gay, mas tem que se dar ao respeito” poxa, mas o que é se dar ao respeito, no conceito da visão conservadora e ultra preconceituosa de uma parte da sociedade? Isso é quase tão simples de entender quanto entender que a soma de dois com dois dá quatro. Para a sociedade conservadora o homossexual, que se da ao respeito é aquele quê, não pode sair de mãos dadas nas ruas com seu parceiro ou parceira, é aquele que sequer pode cogitar a hipótese de dar um selinho ou outra demonstração de afeito em locais públicos e principalmente, no caso de homens gays são aqueles que encontra uma pessoa na rua e esta pessoa vira e fala, nossa eu nunca poderia imaginar que você é gay, pois você não tem jeito de gay, como se gays tivessem apenas um único jeito.

No caso de pessoas travestis e transsexuais, é ainda pior, pois elas são praticamente invisíveis para a maioria da sociedade, e pasmem, essa maioria inclui também pessoas gays e indivíduos que pertencem a outras letras da sigla. Sim meus caros e caras, travestis e transexuais sofrem o dobro e muitas vezes nós que também somos pertencentes a uma comunidade que supostamente deveria ser unida, ajudamos a propagar este sofrimento, esta dor. Então sim, nós LGBTQIA+ também podemos e muitas vezes somos, preconceituosos.

Novamente, longe de mim querer justificar atos repugnantes de preconceito, no entanto, antes de sairmos querendo cancelar qualquer pessoa, é legal, por mais difícil que possa ser, tentar reeduca-la, para que essa pessoa deixe de cometer atos preconceituosos. É sempre bom lembrar que nem todos nós nascemos desconstruídos, aliás, ninguém nasce desconstruído, e devemos ter em mente que apesar de não sermos pais, e não termos a obrigação de reeducar ninguém, precisamos ao menos uma vez tentar, pois esta pessoa pode ter vindo de um contexto social e familiar, que propagava diariamente falas carregadas deste preconceito enraizado que tanto nos assola, nos faz sofrer e também no mata, dia após dia.

E vamos todos nos lembrar sempre, de sermos orgulhosos por ser quem somos, lembrar que cada um viveu, batalhou e sofreu para chegar onde está, claro alguns sofreram e ainda sofrem bem mais que outros, mas ainda assim, cada pessoa tem sua história, sua luta individual e coletiva. Por isso, vamos seguir todos nós lutando, através de seminários, entrevistas, redes sociais e se preciso for até mesmo de uma guerra, para que os nossos, todos os nossos independente da letra, parem ser assassinados por serem eles mesmo. Vamos espalhar o amor, sempre começando a amar nós mesmos.

Compartilhar esta publicação

Subscribe
Notify of
guest
1 Comentário
Most Voted
Newest Oldest
Inline Feedbacks
View all comments
Vika Gama

Adorei a matéria, a LGBTFOBIA presente dentro da nossa comunidade é enorme e conversas sobre isso, são necessárias.


1
0
Would love your thoughts, please comment.x
()
x
Optimized with PageSpeed Ninja