Séries BL: um convite à aceitação de todas as formas de amar

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Séries BL: um convite à aceitação de todas as formas de amar

Escrever sobre esse tema é um desafio para qualquer pessoa. Quando falamos sobre ser “diferente” do padrão social imposto é comum cair no discurso do certo ou errado, preto ou branco, amor e ódio.
Bom, se você tem oportunidade de consumir conteúdos (seja séries, filmes, quadrinhos, livros e o que mais estiver disponível) que retratam a voz das minorias sabe que, na maior parte das vezes, navegamos em muito mais do que 50 tons de cinza. E não, não tem qualquer referência com o best-seller de E. L. James.
Muito mais do que levantar bandeiras ou se lançar ao ativismo, séries que retratam o universo LGBTQIA+, principalmente as BL, têm um papel importantíssimo em nossa sociedade: apresentar uma realidade inclusiva a todas as pessoas. Uma vez que você se identifique com a história, poderá vivenciar junto com os personagens grandes romances, perdas, tristezas e dificuldades.
O gênero ganhou muita força mundial nos últimos cinco anos, principalmente com o movimento de igualdade e inclusão assumindo tanta relevância para as pessoas, mas, principalmente, para as empresas.
Não vamos nos iludir, certo! Desde a Antiguidade, existem pessoas que lutam por seus direitos enquanto minoria. Porém, foi apenas depois que as empresas começaram a ser bombardeadas por suas posturas e seus posicionamentos discriminatórios que a diversidade e inclusão deixaram de ser um assunto incômodo de segundo plano e ganharam lugar de destaque na vitrine da sociedade. Hoje, é “feio” e até mesmo “vexatório” não aceitar a diferença. Ainda bem! Estamos dando passos firmes em direção a uma sociedade melhor.

E O QUE AS SÉRIES BL TÊM A VER COM ISSO?
Têm tudo a ver! A arte imita a vida. Contar histórias é uma prática que acompanha a humanidade desde a pré-história. Somos tocados por narrativas e nos identificamos com elas, ainda que seja por partes e não pelo todo.
Você não acredita em mim? Então, assista a esse vídeo do TED Talks, A Jornada do Herói. Ele conta como as histórias são criadas, como nascem os heróis e como eles se conectam com a nossa vida comum, o que esperamos atingir como seres humanos.
Então, como transformar algo que, a princípio, é tratado como um problema, em algo normal? Contando histórias!

A DESCRIMINAÇÃO LEVADA AO EXTREMO
Um dos primeiros BL que assisti e que me impactou muito foi a animação “Ai no Kusabi” (tradução livre do japonês, Laços de Amor), baseado no romance escrito por Rieko Yoshihara, publicado na revista yaoi, “Shousetsu June”, entre dezembro de 1986 e outubro de 1987. Na época, eu ainda não lia japonês, então fui assistir o anime em 1995 (é assim que a gente entrega a nossa idade!).
“Ai no Kusabi” é uma história futurista, ambientada em um mundo onde os homens são divididos em várias classes sociais baseadas na sua cor de cabelo. Ou seja, as pessoas loiras são as de classe mais alta, muito ricas e com muitos privilégios e as de cabelo preto estão na base da pirâmide, não têm nenhum privilégio, são marginalizadas e discriminadas. Alguma semelhança com a discriminação por classe social, cor ou etnia no nosso mundo? Imagina!

Capa oficial do VHS original.
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Na história, Iason Mink, um loiro de alta classe, vai até Riki, um Mongrel de cabelo preto, e o torna seu “Mascote” para protegê-lo. Claro, rola um sentimento, mas Iason não admite para todos porque não pode. Admitir esse sentimento colocaria Riki em risco. À medida que Riki entende os perigos que Iason encara por estarem juntos, ele se apaixona perdidamente.

Cena do anime, versão original.
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Focado no amor entre Iason e Riki, “Ai no Kusabi” trata de temas como exclusão social e sistema de castas. O que, é claro, impacta irremediavelmente a vida dos dois personagens. Não vou dar spoilers porque, se você quiser assistir, assista porque vale a pena. Mas adianto que, apesar do amor visceral e lindo dos dois personagens, é uma história que incomoda demais, justamente por expor de forma tão clara a discriminação social.

CRISES E DÚVIDAS DA JUVENTUDE
Outra série, que não é 100% BL, mas tem a terceira temporada inteira com foco em um jovem casal gay, é a SKAM (Vergonha).
SKAM é uma série norueguesa incrível, que possui 4 temporadas, cada uma delas tratando de um tema de discriminação, exclusão e como os jovens precisam lidar com isso. Os personagens fazem parte do mesmo universo, ou seja, todos se conhecem.

Capa da série Norueguesa.
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SKAM virou febre. A Noruega possui regras de proteção às produções nacionais que são mais rígidas do que as regras Chinesas (pasmem, porque eu até agora não consegui comprar Mo Dao Zu Shi por causa disso). Porém, em um movimento de disseminar a inclusão e apoiar os jovens, a Noruega vendeu os roteiros para outros países, para que eles possam fazer suas versões e adaptações locais. O resultado é que SKAM ganhou muitas vozes ao redor do mundo. A essência das histórias foi mantida, mas adaptações culturais precisaram ser feitas.

Terceira temporada de SKAM.
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Eu consegui assistir online. Recomendo, porque faz a gente pensar muito, desde o nosso papel na sociedade até questões como uso de medicações controladas, definição de gênero, discriminação por etnia (estrangeiros), crenças e um monte de coisas que acontecem à nossa volta (ou com a gente) todos os dias!
Comecem pela versão original, mas a versão francesa também é uma boa pedida! O Portal Skam Brasil tem todas as informações sobre a produção original, bem como as adaptadas por outros países.

O AMOR QUE O MUNDO QUER VER
Bom… eu não podia deixar de encerrar essa matéria com a série que ocupou todo o meu coração nos últimos meses. Sério gente! Eu não me sentia assim, tão apaixona por uma história, desde que li “Entrevista com o Vampiro”, da autora Anne Rice.

Cena do filme "Interview with the Vampire". Com Brad Pitt e Tom Cruise.
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Não, galera! Não estou falando de Tharn & Type, apesar de que esses meninos “bugam” o meu cérebro com os fanservices mais “intensos” e “realistas” da história BL Tailandesa. Não vou comentar porque precisaria de um texto só para isso!
Estou falando de “Mo Dao Zu Shi” (Grande Mestre do Cultivo Demoníaco), livro lançado na China, em 2017, e que ganhou uma série de TV em 2019. A série, vocês podem conferir no Netflix com o título de Os Indomáveis (The Untamed). O livro não está disponível fora da China, na rede é possível encontrar links do abaixo-assinado para trazer oficialmente o livro para ser publicado no Brasil. Estou na torcida feroz para alguma editora conseguir o feito.
Apesar de a TV chinesa ter adaptado a história e retirado as partes BL, por questões de legislação do país, os atores mantiveram TODO o clima de amor entre os personagens, em atuação sob uma EXCEPCIONAL direção. Os fãs agradecem de coração, Xiao Zhan e Wang Yibo, que deram vida a Wei Wuxian e Lan Wangji!

Imagem de divulgação original "The Untamed"
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Acredito que eu não precise falar sobre a história incrível de amor dos personagens principais, Wei Ying e Lan Zhan. Os personagens começam sua jornada juntos, tomam caminhos com princípios diferentes, enfrentam julgamento sobre o que é certo e errado, são separados pela morte e se reencontram novamente, certos de que muita coisa que ouviram e julgamentos que sofreram são pequenos diante da ausência do outro. Parece poético, mas é exatamente isso que acontece.

Imagem original da sério The Untamed.
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E, se você foi uma pessoa boazinha e viu o vídeo do TED que eu indiquei lá em cima, verá como a jornada do herói está claramente retratada nesse romance épico.
Cada vez que você ler ou assistir Mo Dao Zu Shi, verá alguma coisa que não viu antes. Mesmo assim, o que torna essa história tão impactante (além do amor absurdo que une os personagens, mesmo que um deles só se dê conta BEEEEM depois) é a constante luta entre as necessidades do coração e as regras sociais que devem ser seguidas. O tempo inteiro, você vê esses dois personagens, íntegros e comprometidos com o bem, se questionarem sobre suas escolhas, sobre o que é certo e errado, sobre o que a sociedade em volta determinou como o melhor caminho. Porque o que eles veem nas pessoas e o que precisam fazer para terem suas consciências tranquilas sobre o bem, não correspondem ao que as pessoas dizem que é certo fazer.
Somem a isso uma carga emocional extremamente bem colocada, interpretações impecáveis, cenário e descrição de ambientação sensacionais e você será transportado para esse universo, descobrindo que a felicidade está no caminho e não no fim da jornada; e percebendo que não vale a pena abrir mão do amor. Isso é algo que apenas aqueles que perderam para sempre a oportunidade de estar com quem se ama entendem.

Capa original da Novel Chinesa
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Mo Dao Zu Shi, para mim, é uma obra-prima justamente por trazer à tona aspectos da nossa vida que, muitas vezes, não conseguimos lutar contra, tais como expectativa dos pais, hábitos familiares, posição no trabalho, receio do que falarão de nós, entre tantos outros. E retrata, de forma sutil, que, quando o amor nos é tomado por essas outras questões e temos a felicidade de ter uma nova chance para amar, nada disso importa mais do que ser fiel a si mesmo e estar com quem amamos.
É justamente isso que espero da nossa e das próximas gerações. É por esse motivo que contar histórias é tão importante. É o começo da jornada de termos um mundo onde somos livres para amar quem desejarmos, porque integridade e caráter são questões pessoais, que estão dentro de nós e não somente na pessoa que escolhemos para estar ao nosso lado.
Afinal, como já disse, a felicidade está no caminho e não no fim da jornada! Então, vamos aproveitar o caminho para contar, divulgar e perpetuar o maior número de histórias de amor, livres de preconceito, que pudermos. Com certeza, será emocionante! ~.^

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