Pandemia e a comunidade LGBTQIA+: uma realidade diferente

Pandemia e a comunidade LGBTQIA+: uma realidade diferente

A pandemia mundial mudou nossa forma de ver as pessoas e impactou todas as esferas humanas, mesmo aquelas que ainda não foram possíveis perceber. O resultado disso ainda está longe de ser conhecido, porém, os impactos em toda a nossa estrutura social, econômica e emocional não podem ser ignorados nem questionados, como mostra uma das melhores pesquisas de impacto da Covid-19, presente na internet hoje, organizada pelo Google, e que apresenta informações de fontes confiáveis, dos órgãos oficiais de dados e saúde do Brasil e do mundo.

Impactos globais

Pelo infográfico, é simples perceber o impacto da Covid-19 em, praticamente, toda a estrutura de base da sociedade. Também é simples para qualquer pessoa saber que, quando um evento não está sob nosso controle, abala toda a infraestrutura da sociedade, e as mudanças nos indivíduos não somente são imensas como também são incontroláveis. Não há como resistir a isso. É questão de sobrevivência. Neste cenário, adaptar-se da melhor maneira possível, sem sofrer demais com a mudança, é o novo normal. As reações e respostas têm sido tão diferentes quanto são as pessoas! Fomos levados a mudar nossa forma de nos relacionar, consumir, entreter, sociabilizar, descansar… Porém, o que mais chama a atenção dos pesquisadores e educadores, como eu, que olham para o futuro e tentam traçar tendências de aprendizagem e tecnologia, pasmem, são as mudanças e os impactos emocionais. Pesquisas da OpinionBox, empresa brasileira que apresenta, semanalmente, dados de comportamento sobre este e muitos outros temas, mostram o cenário para os brasileiros, conforme imagem a seguir.

Divulgação | Pesquisa OpinionBox

Fica evidente que o impacto emocional está presente em porcentagens consideráveis, e que a situação global, bem como o momento particular de cada um, não está bem amparada pelos recursos disponíveis, uma vez que a ansiedade, depressão e raiva tornaram-se mais presentes do que antes. Números da Polícia Civil indicam, por exemplo, um novo boletim de ocorrência por agressão doméstica a cada 23 minutos, uma taxa quase 70% maior que no mesmo período em 2019. Outros dados alarmantes, referentes ao emocional, estão diretamente relacionados aos planos para futuro, cuidados pessoais e concentração, como mostra o gráfico a seguir, da mesma pesquisa da OpinionBox.

Para a comunidade LGBTQIA+, além desses números e dos impactos já traçados aqui, existe um contexto ainda mais crítico, relacionado com o tempo de permanência em casa, discriminação familiar, preconceito do sistema de saúde e da sociedade. Isso agrava ainda mais a sensação de solidão, os impactos emocionais e a igualdade social, como nos aponta a pesquisa realizada pela UFMG e Unicamp.

A pandemia de coronavírus, além das questões de saúde e impactos globais já mencionados, agravou problemas referentes ao trabalho, à renda, à saúde mental e à vida da população LGBTQIA+. A vulnerabilidade da população LGBTQIA+ e os impactos emocionais Segundo a Associação Americana de Psiquiatria, pessoas que fazem parte da comunidade LGBTQIA+ têm mais que o dobro de chances de apresentarem alguma condição de saúde mental durante a vida, quando comparados ao restante da sociedade. Isso, em um cenário sem crise e sem pandemia. O estudo do Brasil aponta que 28% dos entrevistados já receberam diagnóstico prévio de depressão. O índice é quase quatro vezes maior do registrado entre a população brasileira, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde (2013).

“Por causa do preconceito, do medo da violência, muitas pessoas que fazem parte da comunidade LGBT vivem em alerta, com cautela, o que já as deixam vulneráveis à depressão, à ansiedade. Outra situação é que, com o isolamento social, pessoas que vivem em casas onde há relações conflituosas sofrem muito mais”.

Posicionamento do pesquisador e demógrafo da UFMG, Samuel Silva

A questão emocional como depressão, ansiedade e transtornos, que já foram mapeados como uma tendência mundial, em razão do clima de incerteza e momento de instabilidade, ganha ainda maiores proporções e se torna um dos fatores cruciais, uma vez que a população LGBTQIA+ lida com altos índices de discriminação, rejeição e sensação de exclusão social.

O atendimento psicológico necessário, quando fornecido pelas entidades governamentais, não atende à demanda dessas pessoas. Igualmente, ao contrário da posição dos representantes de Estado, conversar com “amigos e familiares”, geralmente, não é uma opção para essas pessoas, que sofrem discriminação dentro de suas próprias casas ou tendem a se esconder. O cenário não é muito animador.

O desemprego para pessoas LGBQIA+ durante a pandemia (e depois)

O estudo revela, ainda, que 21,6% dos LGBTQIA+ entrevistados estão desempregados, enquanto o índice total no Brasil é de 12,2%, segundo o IBGE.

“Esta primeira análise nos mostra que a vulnerabilidade sofrida pela população LGBT acaba ficando mais evidente durante a pandemia.”

Em comparação, a taxa de desemprego no Brasil, durante o primeiro trimestre de 2020, foi de 12,2%, conforme pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e a taxa de desemprego da população LGBT é de 21,6%, segundo estudo da UFMG e Unicamp. Antes da pandemia, a taxa de desemprego já era grande e se agravou com a crise econômica decorrente da Covid-19. Desde que o isolamento social começou para conter a pandemia, os números de assassinatos de pessoas trans e travestis subiram, como aponta o levantamento feito pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Além da subnotificação desses casos, o governo ignora os dados e não propõe medidas claras para aplacar a LGBTfobia, incluída como crime de racismo e passível de sanção legal.

Atitude pelas minorias

Neste cenário político, social e econômico praticamente entregue ao caos (e, nesse sentido, a pandemia não é a vilã, mas evidenciou os pontos críticos e abismos que vivemos), o que o governo está fazendo para mudar a situação? Sinceramente, não consegui encontrar pesquisas, números e dados coerentes e confiáveis para apresentar a vocês. Nosso sistema é falho com todo o tipo de minoria. As leis possuem lacunas tão grandes que é possível deturpá-la praticamente para qualquer direção (depende somente das habilidades de argumentação dos envolvidos), e as políticas públicas avançam sem fôlego, tentando amenizar esse duro contexto com os escassos recursos disponíveis. A verdade é que, se quisermos melhorar nossas vidas e o Brasil, não podemos depender de políticos e políticas. Do contrário, seríamos a Suíça! Não, pessoal… não somos a Suíça, afirmo só para o caso de alguém se iludir! Por isso, nossa forma de ajudar é apoiando ações que protejam as minorias. E isso, eu tenho aqui para te mostrar!

Com o objetivo de minimizar os impactos sofridos pelas minorias, o coletivo #VoteLGBT lançou uma campanha para arrecadar fundos e apoiar instituições que prestam ações de amparo à comunidade LGBTQIA+. As informações sobre a campanha estão no site benfeitoria.com/lgbt. Vamos fazer a nossa parte? Divulguem, contribuam, vamos agir pela igualdade.

Referências

https://www.mmaglobal.com/files/328._brazil_1_5010688669204349081.pdf https://www.opinionbox.com/ https://rdstation-static.s3.amazonaws.com/cms%2Ffiles%2F7540%2F1595389067Pesquisa_COVID_19-_17_EDIO.pdf
https://www.votelgbt.org/
https://mtst.org/noticias/coletivo-lgbt-mtst-impactos-da-pandemia-na-populacao-lgbt/
https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2020/06/28/interna-brasil,867471/pandemia-e-mais-dificil-para-comunidade-lgbt-devido-a-intolerancia-em.shtml
https://www.brasildefato.com.br/2020/07/02/pessoas-lgbt-tiveram-mais-problemas-financeiros-e-de-saude-na-pandemia-diz-estudo
https://www.hojeemdia.com.br/plural/pesquisa-aponta-maior-vulnerabilidade-de-lgbts-%C3%A0-pandemia-em-rela%C3%A7%C3%A3o-ao-restante-da-popula%C3%A7%C3%A3o-1.793092
https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/04/30/desemprego-sobe-para-122percent-em-marco-e-atinge-129-milhoes.ghtml
https://nacoesunidas.org/discriminacao-afeta-saude-e-acesso-de-pessoas-lgbtqi-ao-mercado-de-trabalho/

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