O verdadeiro sistema SOTUS

O verdadeiro sistema SOTUS

Olá pessoal, como estão?

Hoje iremos conversar um pouco a respeito do sistema Sotus – que inclusive já ganhou até drama BL com mesmo nome!

Ainda que o assunto de nossa conversa não seja propriamente o romance entre engenheiros e nem sobre o relacionamento de P’Arthit com Kongpob, convido-o a conhecer um pouco mais sobre esse “sistema” bastante comum nas universidades tailandesas!

Origem

À esquerda, “Kongpob” (Singto Prachaya) e “P’Arthit” (Krist Perawat) / Imagem: Reprodução

A origem desse programa de recepção presente nas universidades tailandeses não é totalmente clara.

O que se pode afirmar é que o sistema não é uma invenção “genuinamente tailandesa”, mas sim uma adaptação que, alguns autores, alegam serem britânica, enquanto outros, norte-americana .

Para os que defendem a última, acredita-se que as raízes desse sistema estejam nas academias preparatórias para cadetes nos Estados Unidos em meados do século 19, onde a técnica era considerado produtivo para cultivar a “camaradagem” entre os alunos, além de auxiliar os mais velhos a controlar os calouros rebeldes.

Com o passar do tempo, o intercâmbio cultural cada vez maior entre as diversas partes do mundo, os estudantes estrangeiros foram exportando para países como Filipinas e Tailândia os valores e métodos disciplinares adotados pelos norte-americanos, cujo ápice se deu com a Segunda Guerra Mundial.

Por exemplo, em 1953, foi introduzido pela primeira vez na Kasetsart University, usado como uma “cerimônia de boas-vindas” por décadas, até que foi “extinto” quando se adotou uma abordagem mais “liberal” na educação.

Contudo, ainda que grande parte das recepções dos calouros no ensino superior tenha o foco na diversão e interação entre os alunos, a “versão extrema” não deixou de existir em colégios do interior ou em institutos técnicos.

A Teoria

O termo Sotus é formado a partir da união entre as iniciais de cinco qualidades em inglês. São elas: Senhoridade (simboliza o respeito à hierarquia, portanto, ao “sênior”, o veterano, o mais velho), Ordem, Tradição, União, Spirit (do inglês, “Espírito”).

Teoricamente, o trote universitário tailandês, assim como grande parte dos outros ao redor do mundo tem o simplório objetivo de integrar calouros e veteranos de um mesmo curso a fim de que se conheçam melhor e quem sabe criem laços não somente de amizade e companheirismo, mas também afetivos.

Os tailandeses defensores do sistema pontuam apenas pontos positivos, como por exemplo, fazer parte do trote acadêmico é importante para a formação pessoal e também profissional do indivíduo, pois se trata de uma experiência que o mundo irá fornecer futuramente, fora da universidade, e, portanto, esse primeiro contato “amortece” o impacto da pessoa com o mercado de trabalho.

Além disso, é importante ressaltar que existem apoiadores de diversos estratos e hierarquias da sociedade tailandesa, tais como estudantes, professores, reitores, políticos, e todos em sua maioria apresentam os mesmos argumentos.

A prática

Acontece que para atingir os fins do projeto é preciso passar por muita coisa que, na prática, não é todo que consegue suportar. O motivo? Abusos.

Pesquisando mais sobre o assunto, sobretudo em sites tailandeses (em inglês), é possível encontrar um vasto conteúdo sobre o tema, desde editoriais, artigos de opinião até notícias que reportam os abusos e as humilhações a que os calouros das universidades, sobretudo do interior do país, são submetidos.

As práticas variam desde acampamentos em que os estudantes realizam atividades exaustivas e abomináveis como assistir a vídeos de animais sendo mortos até a beijar o chão, o que torna os alunos vulneráveis a contrair doenças.

Além disso, faz parte do “ritual” rolar pelado na lama, passar doces e outros alimentos menores de boca a boca entre os estudantes e até mesmo receber punições como atividades ou castigos físicos. 

A lista é grande e variada, porém o que me chamou a atenção foi o fato de existir  notícias sobre o assunto desde 2010, o que corrobora a permanência desse comportamento até os dias atuais, mas por quê?

Descaso da mídia ou manipulação do governo?

É difícil opinar sobre de quem é a culpa pela perpetuação desse tipo de atitude, que parece ter sido “institucionalizada” no país há décadas.

Os críticos de Sotus pontuam alguns tópicos que acho interessante ressaltar, a saber, acreditam que a manutenção do sistema significa estar de acordo com um sistema educacional preocupado somente com hierarquia e disciplina, já que os calouros são ensinados apenas a ouvir o que seus veteranos têm a dizer e ficarem calados, portanto trata-se de um espaço fechado e que não aceita opiniões divergentes.

Por ser um ambiente altamente repressor e reprodutor de velhos hábitos, acredita-se que a postura conivente das universidades em acobertar a presença velada dos trotes e outros abusos cometidos pelos estudantes possa ter ligação com o apoio dos militares, uma vez que para uma ditadura, ter uma população absorta é muito mais atraente do que formar cabeças pensantes, que eventualmente possam criticar o sistema.

Foto: The newspaper Thairath

Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come

Mas e os alunos que decidem não participar das atividades?

Segundo relatos, a maioria dos estudantes que participam desses eventos é por causa do medo de não ter amigos ou ser taxado “egoísta”, já que o argumento mais forte do sistema é justamente a formação do companheirismo entre os estudantes.

Mas para aqueles que se negam passar pelo ambiente torturante dos eventos de recepção das universidades, até o resto da graduação irão levar uma espécie de “selo anti-amizade” e serão estigmatizados pelos colegas.

Foto: Southeast Asia Globe

Fatalidades

Como já mencionado, ainda que haja locais acadêmicos em que os trotes de fato sejam mais receptivos e civilizados, há locais em que a palavra “limite” não tem vez, o que eventualmente abre espaços para tragédias.

O número de mortes ou de vítimas de abusos físicos ou psicológicos é alto, no entanto não pude encontrar estudos específicos ou gráficos, mas apenas para exemplificar, na última sexta (21), Phornphiphat “Nong Mint” Eaddam, 19, caloura do curso de língua tailandesa da Faculdade de Humanidades e Ciências Sociais da Universidade Phuket Rajabhat morreu durante as atividades de “boas-vindas”.

A jovem faleceu enquanto corria em volta do campo de vôlei pela manhã na quarta-feira, o motivo? Punição por ter cometido oito erros enquanto realizava a prática. Sem poder beber água, desmaiou devido ao cansaço.

Ainda que o laudo médico tenha constatado a presença de sangue nos pulmões de Phornphiphat, provavelmente pelo esforço extremo, o reitor da universidade, Hirun Prasankan, reitera que a morte da estudante em nada tem relação com o rub nong (expressão em tailandês para as atividades de recepção), mas sim com a prática esportiva. Em condolência, a universidade doou o valor de 100.000 bahts (aproximadamente 18.000 reais) para auxiliar nas despesas fúnebres.

Phornphiphat / Imagem: Reprodução

Movimento “anti-sotus”

Na última década, está crescendo, com considerável força, um movimento que, fundado em 2011, mostra-se contrário ao sistema Sotus, e que inclusive possui uma página no Facebook denominada “Anti-Sotus” formada por ativistas que defendem a abolição dessas práticas nas universidades.

Devido ao baixo investimento recebido, a atuação do grupo se resume, basicamente, pela divulgação maciça de notícias, vídeos e outras informações que obtêm por meio de informantes ou denúncias anônimas sobre casos de abusos que ocorrem nos ambientes acadêmicos.

Da esquerda, as lideranças do Anti Sotus: Pitawat ‘Man’ Chawsithan, Keerati ‘A’ Panmanee, Peerada ‘Gib’ Nuruk, e Kollawach ‘F’ Doklumjiak

“Fico orgulhoso quando consigo convencer alguém que antes não entendia, que está me enviando mensagens para me notificar, para ver que o que estão fazendo é violar os direitos dos outros” Keerati Panmanee.

Ciclo Vicioso

Em 2012, o ex-aluno de humanidades da CMU Aroonakorn Pick, lançou o curta-metragem “Vicious Cycle” (do inglês, “Ciclo Vicioso”) que conta a história de um calouro enfrentando o bullying e a intimidação de veteranos. No final das contas, o herói Ken os vence com a lógica, explicando que a coerção e a doutrinação não ajudarão os alunos a progredir na vida.

A crítica melódica

Integrantes da banda “Rap Against Dictatorship” / Imagem: Reprodução

Neste ano, o conhecido grupo “Rap Against Dictatorship”, polêmico por criticar o governo e a monarquia tailandeses, não deixou de fora o seu entusiasmo para expressar seu repúdio contra a opressão a que os estudantes são submetidos no mundo acadêmico.

Um dos fundadores do Rap Against Dictatorship, Dechathorn Bamrungmuang, levantou questões sobre o sistema Sotus desde que era um estudante universitário. Embora ele tenha se formado na universidade há quase uma década, ele observou que muitos jovens ainda sofrem os mesmos abusos por parte dos veteranos até hoje.

“Quando eu era estudante universitário, criei um curta-metragem sobre Sotus, mostrei para calouros e postei online. Naquela época, o vídeo gerou muitos comentários e gerou debates. Os calouros começaram a pensar que não queriam ir por meio do trote e os alunos do último ano não ficaram felizes com minha ação. Isso aconteceu há muitos anos, mas mesmo agora, encontro Sotus sendo praticado em muitas escolas”, disse Dechathorn.

Na música, há inúmeras rimas em tailandês, em que se percebe a correlação entre a repressão exercida pelo sistema com a que o governo já faz com toda a população civil.

 “Não posso fazer isso e aquilo

Uso indevido de poder, não presto respeito.

Com Sotus, o irmão mais velho irá controlar você

Mas você não pode me forçar, você não é meu pai.”

Opinião

Falando sobre a série, não sei, mas fazer dessa cultura opressora um romance não parece muito cruel? Tudo bem que na série podemos ver claramente, durante os primeiros episódios da primeira temporada, as exaustivas atividades que os calouros realizavam e tudo mais, porém ainda sim a abordagem no final foi muito romantizada.

Embora seja algo “cultural”, na realidade, há pessoas morrendo. É preciso falar sobre isso.

Por último, apenas gostaria de mencionar que nos atuais protestos que assolam o país contra a Ditadura e a Monarquia, na pauta dos estudantes do ensino superior também está inclusa a extinção do sistema Sotus ou no mínimo reformas, da mesma forma que estudantes do ensino médio reivindicam mudanças no regimento escolar quanto à vestimenta e aos cortes de cabelo – mas esse é um assunto para outro dia.

Referências

Aluna que morreu este mês em Phuket: Khaosod English e Bangkok Post

Sobre ativistas e equipe Anti-SOTUS: Khaosod English

Lista com as 10 piores atividades do sistema SOTUS: Khaosod English

Página que comparou SOTUS com o Nazismo: Chiang Mai City Life

Crítica ao sistema SOTUS: Nation Thailand, EFE, Bangkok Post, SCMP

Bastidores sobre o local de gravações da série Sotus: Rafcarlos Said

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