O que está acontecendo na Tailândia?

O que está acontecendo na Tailândia?

Nas últimas semanas, inúmeros protestos têm tomado conta das ruas de Bangcoc, capital da Tailândia, país este que para muitas pessoas aparenta ser um lugar paradisíaco – sobretudo no que diz respeito sobre sua exuberância de riquezas naturais, o que não deixa de ser verdade. Mas, ao que parece, nem tudo por lá anda tão perfeito assim.

Para entender os motivos que provocaram essa onda de manifestações no meio de uma pandemia, é preciso recuar alguns anos em sua história.

A Política

Primeiro, é preciso reconhecer qual o regime político vigente no país.

Desde 1932 o país se constitui como uma monarquia constitucional, na prática quer dizer que na Tailândia existe rei, mas diferente das tradicionais monarquias absolutistas do passado, em que o monarca detinha todo o poder em suas mãos, aqui, sua zona de influência é limitada pela constituição e também por um grupo de parlamentares, que teoricamente são eleitos pelo povo.

Como mencionado, na teoria, tais parlamentares deveriam ser eleitos democraticamente pela população civil, assim como o primeiro-ministro, tal qual o modelo britânico. Contudo, desde 2014 o país é governado pelos militares, os quais por meio de um golpe assumiram o poder, cujo cargo de chefe de governo é ocupado pelo ex-militar Prayut Chan-ocha.

Prayut Chan-ocha, atual primeiro-ministro da Tailândia Foto: Soe Zeya Tun / Reuters

Durante os cinco anos seguintes, pode-se dizer que os tailandeses viveram um “período de terror”, pelo menos politicamente, uma vez que tiveram seus direitos civis, como liberdade de expressão, e também políticos, como a eleição de líderes, cerceados.

A situação se “altera” quando a junta militar que governava o país decide, em 2019, convocar novas eleições, porém dois anos antes, por meio de manobras políticas, aprovaram uma constituição que permite eleger parlamentares indicados pelos próprios militares, ou seja, ainda que o partido da junta recebesse menos da metade dos votos, eles seriam eleitos.

Dessa forma, os resultados das eleições não mudaram muita coisa, pois Prayut permaneceu no cargo de primeiro-ministro e agora o parlamento é plenamente manipulado pelos dirigentes.

Mas, o grande número de votos que o principal partido de oposição recebeu preocupou os militares.

A oposição

O partido que fez frente aos militares é denominado “Futuro Adiante”, seu líder é Thanathorn Juangroongruangkit, defensor uma plataforma política democrática e crítico frontal dos militares.

O novo partido se tornou muito popular entre os jovens, sobretudo entre grupos de minorias como o segmento LGBTQ.

Além disso, uma das promessas mais impactantes do partido durante a campanha eleitoral foi reduzir drasticamente o orçamento das Forças Armadas e eliminar o alistamento obrigatório, o que claramente enfureceu os militares.

Assim, para evitar contratempos, o governo tratou logo de dissolver o partido, bem como banir suas lideranças da política por dez anos. Dentre eles, Thanathorn foi acusado injustamente por corrupção.

Thanathorn durante um de seus comícios Foto: Jewel Samad – AFP/Getty Images

Essa decisão, realizada em Fevereiro deste ano, desencadeou novos protestos no país, porém devido à eclosão da pandemia do novo coronavírus, foram adiados.

Ativismo e perseguições

Essa postura durou alguns meses, até que em Junho um ativista dos direitos humanos e opositor ao governo e à monarquia desapareceu enquanto estava exilado no Camboja, país que faz fronteira com o sudeste da Tailândia. Ao que tudo indica, o “sequestro” foi a mando dos militares.

É necessário salientar que o desaparecimento de opositores e ativistas políticos tailandeses é bastante comum, apenas para exemplificar, no começo do ano passado foram encontrados dois corpos de ativistas tailandeses cheios de concreto boiando no rio Mekong (localizado ao nordeste do país).

A Monarquia

Dentre os alicerces da sociedade tailandesa, estão presentes o budismo (religião com mais adeptos no país) e a família real. Sobre a última, com a sucessão do trono e a ascensão do rei Maha Vajiralongkorn ao poder, a monarquia passou a ser criticada com maior intensidade devido à impopularidade do novo monarca.

Com acusações que variam desde o seu envolvimento com drogas ilícitas a denúncias sobre desfrutar de uma vida luxuosa com um harém de mulheres na Alemanha, lugar em que passou a maior parte de sua vida, o rei Maha X, como também é conhecido, é uma figura bastante curiosa e ao mesmo tempo polêmica.

Além disso, é válido lembrar que na Tailândia existe uma lei de “Lesa Majestade” (também conhecida como Artigo 112) que veda qualquer tipo de crítica ao rei e à família real sob pena de até 15 anos de prisão.

Novas manifestações

A união entre a insatisfação política e a baixa incidência da Covid-19 em território nacional foram determinantes para o início de uma segunda onda de manifestações.

Dessa forma, desde o dia 18 de Julho, os manifestantes voltaram às ruas em peso protestar contra todo o aparato opressor que reveste o país.

Uma das características mais marcantes desses protestos é o fato de serem compostos principalmente por jovens estudantes (tanto de escolas quanto de universidades) que vestem camisas pretas (como forma de luto) e apontam os três dedos para cima simbolizando o repúdio ao autoritarismo na Tailândia – gesto este idêntico ao do filme “Os Jogos Vorazes”.

Basicamente, os manifestantes apresentam três reivindicações: a primeira, a dissolução do parlamento (formado pelos militares), a segunda, o fim das perseguições contra opositores ao governo, por último, exigem a criação de uma nova constituição, desta vez, mais democrática, afastada tanto dos militares como da família real.

Esses protestos agora estão acontecendo quase todos os dias, diferente do início, em que eram realizados somente aos finais de semana.

Por exemplo, ontem (17), em pelos menos dez colégios do país, estudantes se reuniram antes do início das aulas para protestarem contra o governo e a monarquia, utilizando laços brancos – símbolo contra a democracia. E, em uma dessas escolas, a polícia foi chamada para conter o movimento.

Outra característica dessas manifestações consiste no uso das mídias digitais, desde a organização dos futuros protestos (em que decidem o local, dia e hora), mas também a transmissão ao vivo, assim como o uso de tags sugestivas e o pedido para que as pessoas de outros países se mobilizem pela causa e falem sobre essas manifestações.

Campanha “Fãs de BL pela Democracia na Tailândia”

Acompanhando o andamento dessas manifestações ao longo das últimas semanas, a equipe da Boys Love Brasil em parceria com o Aiigo! Doramas decidiu criar a campanha “Fãs de BL pela democracia na Tailândia”, que baseada no “Manifesto BL”, uma espécie de carta aberta que convoca todos os fãs de dramas boys love para apoiar a causa e no vídeo postado no canal do Aiigo!, em que explicamos a trajetória do país pelo menos os últimos 20 anos, tentamos “popularizar” essas manifestações no Brasil.

O vídeo, que estará no final desta matéria, possui legendas em inglês, de modo que se torne mais acessível também para os fãs internacionais.

Porém agora, após conseguir que o cenário político tailandês esteja mais presente no saber da comunidade, gostaríamos de expandir o nicho, isto é, que mais pessoas não só no Brasil, mas em todo o mundo saiba o que está ocorrendo na Tailândia e se mobilize junto conosco para que por meio da visibilidade internacional, possamos apoiar os manifestantes e ao mesmo tempo pressionar o governo e a monarquia do país por mudanças.

Se você gostaria de ajudar e/ou participar dessa campanha, por favor, entre em contato conosco por meio de nossas redes social, todo o apoio é bem vindo.

Referências

Sobre os protestos de 2010: G1 e BBC

Reportagens sobre perseguições políticas (em inglês): Khaosod English, StraitS Times e BBC

Sobre as eleições de 2019: BBC

Sobre uma das lideranças das atuais manifestações (em inglês): Prachatai

Sobre Thanatorn (em inglês): CNN

Protestos contra o rei: Folha de São Paulo

Protestos de Ontem(em inglês): BangkokPost

Protestos de Domingo: G1 e Exame

Cobertura completa sobre os protestos (em inglês): BangkokPost

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[…] já mencionado em outro texto que escrevi fornecendo um panorama geral sobre o contexto das manifestações, além de convidá-los a […]

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[…] canal do Aiigo! Doramas, além disso, aqui no site, há mais duas matérias dedicadas ao assunto, a primeira, mais ampla, em que explicamos o motivo dos atuais protestos, a outra, uma breve atualização com […]


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