No fundo, nós sempre sabemos

No fundo, nós sempre sabemos

Olá, meus unicórnios, tudo bom?

  Nessa matéria, vou usar como exemplo o filme “The Half Of It” (e tentar não soltar muito spoiler pra quem não assistiu ainda), que traduzido para o português é chamado de “Você nem imagina”, para falar de algo que também é muito importante: O momento que nos assumimos. Caso você ainda não seja, também não tem problema, nós temos nosso próprio tempo de falar. Mas vamos pra quem ainda não conhece o filme, vou apresentar um pouco sobre ele, prontos?

– The Half Of It

Sinopse: Quando um atleta da escola pediu para Ellie Chu escrever uma carta de amor por ele, ela não imaginava que se tornariam amigos. E pior, que ela se apaixonaria pela crush dele. (Fonte: Netflix)

Duração: 1h45min   Lançamento: 31.05.2020

  O filme foi escrito e dirigido pela Alice Wu, também lésbica, e lançado no dia 1 de Maio de 2020. Apesar de parecer, o filme não se trata propriamente de um romance, como a própria protagonista comenta, é algo mais relacionado a questionamentos e as dificuldades de alguém do oriente ter quer viver num país ocidental. O filme se passa na pequena cidade fictícia de Squahamish, Washington.

  Ellie Chu é uma adolescente comum, mas sofre bullying por ter descendência asiática, chinesa pra ser mais exata. Ela ganha escrevendo os trabalhos dos demais alunos e tem que lidar com seu pai que não sabe falar inglês fluentemente.

  Porém, ela vê sua vida entrar numa “montanhas-russa” quando aceita escrever cartas para Aster Flores, se passando por Paul. Ellie acaba entrando em conflito interno sobre várias coisas, como a faculdade que quer realmente fazer, religião e sua própria sexualidade. No meio disso tudo, ela também se aproxima muito de Paul e eles criam um laço bonito de amizade, onde ambos se apoiam.

  O intuito do filme é tentar mostrar isso, o processo de auto descoberta, onde Ellie se questiona sobre tudo, mas no fundo, no meio de todas as incertezas, ela sabe de algo: ela sente algo diferente pela Aster, além dela ser uma garota linda e inteligente, assim como descrita por Paul.

  Okay, agora me contem, vocês se descobriram quando? E como foi o processo de aceitação? Falando da minha experiência pessoal, eu sabia desde criança (8 ou 9 anos), quando gostava da filha da vizinha da minha vó, o engraçado era que achava que não tinha nada de errado, até ver dois adultos se beijando e tentar fazer o mesmo, e a menina ter surtado. Depois disso, a primeira vez que fiquei com uma garota eu tinha entre 10 e 11 anos, uma vizinha também, mas dessa vez ela era mais velha. Porém, ela pedia pra não contar a ninguém. 

  Eu frequentava a igreja desde os 7 anos e conforme fui crescendo, o tipo de assunto pregado foi se tornando outro, agora o foco era a adolescência e tudo o que rodeia nessa fase para que nos faça sair do caminho. Alguém lembra disso? Bem, essa também é um das propostas de questionamento no filme. Quando me disseram que duas pessoas do mesmo sexo era errado e isso me faria ir pro inferno, tranquei isso dentro de mim e aceitei como uma verdade: Não podia gostar de garotas. E assim foi até os meus 17 anos, sempre que sentia algo estranho, socava dentro do meu coração pra nunca mais sentir, afinal, também gostava de garotos. 

  Quem nunca ouviu aquela frase: “no ensino médio você sempre se descobre tal coisa”, bem, isso é uma verdade, mas não pra todos, é óbvio. Mas foi pra mim, no segundo ano comecei a questionar a religião, por que tudo precisava ser de um jeito ou de outro? Aquilo com certeza me tirou várias noites de sono. E, finalmente, terceiro ano, hoje eu acho essa história um tanto engraçada, porém, a minha atitude martelou na minha cabeça por dois anos (contando o ano que estamos), mas vamos lá.

  Eu fazia um cursinho, onde alguns colegas da minha escola também faziam e, por essa razão, acabei fazendo amizade com uma menina da minha turma por lá. Tempos depois, essa garota disse que uma amiga dela queria me conhecer, poderia ter recusado? Claramente, nem me conhecia direito pra saber se gostava ou não de garotas, mas aceitei por dois motivos: estava afastada da igreja e queria experimentar, vai que I kissed girl and i like it. Passou dias e a garota não me chamava e já estava achando que era algum plano pra zoarem comigo, então ela finalmente apareceu e ela é tão linda (poderia usar era, mas ela tá viva, amados), nós passamos uns dias conversando e tínhamos os mesmo gostos para livros e pra músicas, mas demorou pra gente ficar porque eu estava enrolando ela. Fazia anos que não ficava com uma garota e estava apavorada, entretanto, por fora aparentava que sabia exatamente o que dizia, bem plena. Até um dia ela chegar  e ouvir um monólogo meu que parecia eterno e praticamente dizer “ou vai ou racha”. Eu fui. A sensação? Parecia que tinha uma onda de eletricidade passando por todo o meu corpo. 

  Mas no dia seguinte, fui uma completa idiota fingindo que não estava vendo ela e dizendo pras minhas amigas que não havia gostado. Razão disso? Fiquei com tanto medo do que estava sentindo que minha mente ficou tipo chernobyl. E assim se passou o resto do ano, eu via ela na sala e nós não trocavámos mais conversas.

  Após isso, comecei a pesquisar mais sobre a comunidade LGBTQIA+, porque queria tentar dá uma chance pra me entender, depois me aceitar e me amar. Teria dado certo, mas minha mãe leu uma conversa no meu celular antes que eu pudesse ter a chance de chegar no processo de me amar do jeito que sou e acabou me arrancando do armário pra alguns amigos dela da igreja. Foi um ano muito difícil, mas mesmo assim escrevi uma carta pra ela explicando como tudo tinha começado, detalhe por detalhe. De como eu pedia pra deus tirar isso de mim, de como eu sentia tanta raiva ou de achar que isso era só uma fase desde o início da adolescência.

Hoje, nós nos damos bem, ela me respeita e me ama do jeito que sou, mas foram dois anos de muitas brigas e diálogos até chegar aqui. Ela me dá conselhos amorosos e no último até disse que um dia eu encontraria pessoa certa, independemente se homem ou mulher. Chorei real oficial.

  Mas a questão de tudo é: eu não estava pronta pra me assumir e sei que muitos também já passaram por isso, de ser tirado do armário antes de ter a chance de se auto conhecer. Se você ainda não se sente preparado(a) pra gritar aos quatro ventos quem é, está tudo bem, um passo de cada vez. Porém, um conselho, de alguém que já foi muito influenciada por opiniões alheia a ponto de sempre querer se esconder, você é suficiente e amado. Às vezes é bem difícil ser LGBTQIA+, mas a nossa luta é diária e estamos juntos nisso, você não está sozinho.

  Bom, é isso, espero que tenham gostado e não esqueçam de seguir a BLB em todas as redes sociais pra ficar por dentro das novidades. Beijos.

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