Mulheres LGBTQIA+ e o receio de “sair do armário”

Mulheres LGBTQIA+ e o receio de “sair do armário”

Vou iniciar essa matéria com um dado estatístico pessoal (se é que isso existe) e que comprova a falta de representatividade dos próprios meios de comunicação com as mulheres LGBTQIA+. Passei um dia inteiro procurando informações, pesquisas e depoimentos que falem especificamente do sentimento das mulheres que precisam se assumir para si mesmas, suas famílias, seus amigos, colegas de trabalho e o material que encontrei tem qualidade, mas é infinitas vezes menor do que os materiais e indicadores dos gays, trans, drags e até o binários (que, finalmente, estão começando a ganhar espaço agora). Já é possível perceber que, antes de nos assumirmos mulheres LGBTQIA+, é preciso nos assumir mulheres. E isso não é pouca coisa! Somos, todas, heroínas!
Passado o meu momento de incômodo (porque incomoda mesmo), vamos ao que interessa: por que parece mais difícil para as mulheres assumirem sua sexualidade, principalmente no trabalho?

Sem romantismo, na real

A trajetória de uma pessoa LGBTQIA+ que se assume publicamente não deve ser romantizada. Afinal, sabemos que “sair do armário” tem um preço.

Infelizmente, o Brasil ainda faz parte do grupo de países que mais mata LGBTQIA+ no mundo. De acordo com as informações divulgadas no relatório do Grupo Gay da Bahia, 329 pessoas foram vítimas de homotransfobia em 2019, o que equivale a uma morte a cada 26 horas. Apesar do triste panorama, o número ainda representa uma queda, uma vez que em 2018 foram 420 mortes, e em 2017, 445. É difícil saber se a queda dos indicadores representa uma evolução real na forma de pensar das pessoas, contudo, apesar do risco que é se assumir LGBTQIA+ no país, essa ainda é a melhor (e única) alternativa para muitos.

Desigualdade de gênero antes da desigualdade LGBTQIA+

Para as mulheres, é duplamente difícil assumir livremente um relacionamento homoafetivo, porque a própria sociedade, a estrutura que rege a base das relações, é construída/apoiada em desigualdade de gênero (vulgo machismo), no qual somos ensinados desde berço a acreditar que o gênero feminino é mais frágil (veja bem, não estou falando de força muscular, e sim de fragilidade emocional e psicológica) que o masculino. Existem regras e padrões que a sociedade construiu para separar a imagem feminina da masculina e reforçar essa desigualdade.
Como exemplo bem básico, podemos citar a questão de a mulher usar rosa e o homem azul. O que importa não é a cor em si, mas a ideia preconcebida de que que homens de verdade não gostam de rosa (que é uma cor “de mulher”) e mulheres de verdade não devem gostar de azul (porque é cor “de homem”). Qualquer semelhança com o discurso de Damares Alves não é merca coincidência.
Ainda não se convenceu ou não conseguiu imaginar exatamente do que eu estou falando? Assista ao trailer do filme Eu não sou um homem fácil, da Netflix que você vai entender exatamente como a desigualdade de gênero está arrigada na gente. O filme é ótimo e está na Netflix com idioma original e legendas. Vale a pena para divertir e pensar um pouco. Ele ilustra exatamente o impacto da desigualdade de gênero em nossa sociedade.
O resultado disso é que posturas machistas e ensinamentos machistas fazem a relação entre os gêneros se estabelecer na desigualdade, reforçando o tempo todo que as mulheres são inferiores aos homens, o que limita as mulheres, tanto ética quanto socialmente.

Não é de se admirar que muitas pessoas acreditem que as mulheres não possuem os mesmos direitos que os homens, como afirma e garante o artigo 5° da Constituição Federal. Embora as mudanças venham ocorrendo lentamente, a cultura sexista (pasmem!) ainda prevalece nas relações familiares, em muitas situações sociais e, principalmente, nas questões salariais e nas oportunidades de trabalho.
Sim, pessoal. O machismo continua existindo e bem vivo ao nosso redor, apesar de as mulheres estarem independentes e conquistando cada vez mais seu espaço na sociedade. E, agora, ele acontece em silêncio, nas entrelinhas, naquela piadinha “inofensiva” à mesa do almoço.

A dificuldade de ser uma mulher que se relaciona com outra mulher

Com a desigualdade de gênero, que coloca as mulheres em posição inferior, ainda que de forma velada, fica muito mais difícil “sair do armário”.

Divulgação

Os motivos são os mais variados e tão diferentes quanto as pessoas. Cada uma tem uma história, precisa avaliar o que ganha e o que perde (porque fazemos escolhas o tempo todo e se assumir/reconhecer é somente mais uma delas), e tomar decisões que nos façam mais felizes e plenos. Quanto a isso, não há um passo a passo, um manual, ou uma receita de bolo a seguir.
Porém, uma pesquisa da consultoria PwC mostra que apenas 38% das mulheres atraídas pelo mesmo sexo se assumem no ambiente profissional, ainda que 65% se sintam confortáveis com sua sexualidade. Elas acreditam que expor sua orientação sexual pode atrapalhar a carreira, mas julgam importante se assumir para trabalhar melhor.
Ou seja, mulheres que se aceitam e assumem sua sexualidade entre familiares e amigos, não se sentem seguras para fazer a mesma coisa em ambiente profissional, por receio de que o julgamento e a discriminação impactem suas carreiras e finanças.
Por outro lado, a mesma pesquisa mostra que quanto mais experiência e senioridade, maior o conforto de as mulheres para se assumir no trabalho, o que, para 70% das entrevistadas, está associado à representatividade e ao respeito às pessoas LGBTQIA+.
Dessa forma, é possível refletir que a experiência de vida, idade, vivência são fatores importantes para que possamos não somente nos encontrar em nós mesmas, mas também para encontrar nosso lugar no mundo e nos empoderarmos a respeito de nossas escolhas.


De tudo o que lemos, vemos e ouvimos, a mensagem que fica mais clara para mim, e que quero compartilhar com vocês, é que o mais importante é sermos fiéis a quem somos, nossos pensamentos, nossos sonhos, nossos valores. Quando a certeza de estarmos plenos e sermos autênticos toma conta de nós, o resto é consequência. Quando nos aceitamos de todas as formas, gordos ou magros, homens ou mulheres, brancos ou negros, altos ou baixos, e o que mais tivermos das diferenças que nos unem, as pessoas à nossa volta têm menos espaço para julgar.
Fica valendo, ao menos para mim, a máxima da MARAVILHOSA Lady Gaga em “Born this Way“:

“(…)I’m beautiful in my way
‘Cause God makes no mistakes
I’m on the right track, baby
I was born this way
Don’t hide yourself in regret
Just love yourself and you’re set
I’m on the right track, baby
I was born this way(…)”

Letra da música Born this way, de Lady Gaga

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