Homofobia no trabalho: como se posicionar sem exposição exagerada

Homofobia no trabalho: como se posicionar sem exposição exagerada

Pouco a pouco, nosso país vem progredindo no combate oficial à homofobia em todas as frentes: trabalho, sociedade, família. Hoje, olhando o panorama mundial, podemos dizer que estamos em evolução contínua, principalmente se considerarmos que 11 países ainda consideram relacionamentos homoafetivos como crime, inclusive sujeitos à pena de morte.

Apesar dos avanços dos direitos legais para a comunidade LGBTQIA+, a homofobia persiste e atinge todos os aspectos da sociedade, inclusive  o ambiente de trabalho. Saiba mais sobre o tema e como agir sem se expor. Confira essa matéria que preparamos para você.
El País Internacional

Marcos históricos que demonstram avanço legal

17 de maio de 1990 | a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista de Classificação Internacional de Doenças.

30 de dezembro de 2005 | realizada a primeira adoção por um casal homossexual no país, na cidade de Catanduva, no interior de São Paulo.

5 de maio de 2011 | O Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu, por unanimidade de votos, a união estável entre casais do mesmo sexo como entidade familiar.

15 de agosto de 2018 | O Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou e reconheceu, por unanimidade de votos, que pessoas trans podem alterar o nome e o sexo no registro civil, sem que se submetam a cirurgia (o direito à sua identidade de gênero).

13 de junho de 2019 | O Supremo Tribunal Federal (STF) criminalizou a homofobia, enquadrando os casos de discriminação sexual ou de identidade de gênero na Lei de Racismo.

8 de maio de 2020 | O Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a restrição de doação de sangue por homossexuais. Até então, o Ministério da Saúde e a Anvisa negavam o direito de doar sangue aos homens que tivessem feito sexo com outros homens nos últimos 12 meses.

Mesmo com esses e outros avanços conquistados em mais de 40 anos de luta pela igualdade, inclusão e respeito, as conquistas são muito frágeis, porque esses direitos podem ser revogados a qualquer momento.
Pesquisas mostram que o Brasil caiu de ranking mundial em relação à sensação de segurança desde a última eleição presidencial e que, em 2019, registrou 1 morte por homofobia a cada 23 horas. São números expressivos, preocupantes e indicam que ainda estamos muito longe de realmente aceitar a diversidade como um todo.
“Nossos números de violência são expressivos. O direito à vida, que é um princípio básico do ser humano, é retirado dessa parcela da população”, diz Liliane Rocha, fundadora da consultoria Gestão Kairós. “Também há um imenso desconhecimento sobre diversidade sexual. As pessoas não compreendem as diferenças entre o sexo biológico do nascimento, a expressão, a orientação sexual e a identidade de gênero.”

Divulgação

Parece impossível que, no mundo atual, a sociedade possa regredir tanto assim. Mas é possível. E se é possível, devemos nos manter sempre vigilantes.

A diversidade nas empresas: quanto mais diferente, melhor. Será?

Você deve estar preocupado com o ambiente corporativo em um cenário como o descrito acima.
O que podemos observar no mercado de trabalho é que, cada vez mais, as empresas estão preocupadas com o tema diversidade e estão tratando a inclusão como pauta prioritária nas mesas de diretoria. Como já mencionei em outra matéria, não é somente uma postura inclusiva, preocupada com a igualdade, apesar de que várias empresas realmente “vestiram essa camisa” e possuem projetos sociais importantes como Natura, Sodexo, PwC, Kaiser Permanente, Ernst & Young, Mastercard, Novartis, entre outras. A realidade é que, em razão dos avanços legais e da pressão social, a maior parte das empresas se diz inclusiva, porém, na realidade, não consegue mudar sua política interna.

Por quê isso acontece? Como o próprio nome já diz, uma empresa é uma “pessoa jurídica”, ou seja, é uma entidade viva, orgânica, que tem valores, um DNA, aspirações para o futuro e um papel no mundo (tanto econômico, quanto social). Essa “pessoa jurídica” é formada pela visão dos donos e/ou sócios somada aos valores, comportamentos e às atitudes de TODOS os colaboradores que fazem parte dela. Por isso, é tão difícil mudar uma empresa. É um trabalho lento, que requer dedicação, porque implica mudar o paradigma das pessoas (ou, pelo menos, da maioria das pessoas).
Contudo, preocupar-se com a diversidade e se comprometer a fazer contratações de pessoas diferentes, de fato, tem um resultado muito positivo para o negócio. A diversidade gera mais retornos financeiros, acredite! Uma pesquisa da consultoria Mckinsey, por exemplo, mostra que empresas que se preocupam com a diversidade de gênero são 21% mais lucrativa
Além disso, a diversidade tem impacto enorme na capacidade de inovação e criatividade das empresas porque, com diferentes pontos de vista e realidades, as soluções se tornam muito mais eficientes e rentáveis. Uma pesquisa feita por professores da Nanyang Business School, de Singapura, e da Universidade de Finanças e Economia, de Xangai, mostrou que empresas sediadas em estados com leis antidiscriminação aos LGBTQIA+ tiveram um aumento de 8% no registro de patentes. Incrível, não?

Como isso reflete no trabalho?

De acordo com um estudo norte-americano realizado pela Human Rights Campaign, cerca de 62% das pessoas recém-graduadas na universidade, que se identificavam como LGBTQIA+, “voltam para o armário” quando começam no primeiro emprego. Isso é um indicador mundial de que a liberdade que se conquista antes de ingressar no mercado, tende a ser reprimida no contexto corporativo.

Divulgação | Imagem harry-quan/Unsplash

Outra pesquisa, divulgada pelo LinkedIn, mostra que 81% dos profissionais LGBTQIA+ acreditam que ainda falta muito para as empresas acolherem melhor a comunidade.
54% dos participantes LGBTQIA+ dizem que a empresa onde trabalham possui práticas inclusivas, mas 35% disseram que já sofreram discriminação no ambiente de trabalho, sendo que 12% deles disseram que o preconceito partiu (direta ou veladamente) de líderes da empresa, incluindo gestores diretos.

Imagem de Tumisu por Pixabay

Piadas e comentários homofóbicos são as formas mais frequentes de preconceito no ambiente de trabalho. A pesquisa indica que 83% dos profissionais LGBTQIA+ acreditam que as empresas deveriam criar medidas de responsabilização de colaboradores que cometerem discriminação por causa da orientação sexual e identidade de gênero de seus colegas.
A sensação é de que o cenário precisa melhorar e muito no Brasil. Já entendemos que é assertivo para a empresa ter colaboradores diferentes, abraçar a diversidade, ter uma postura inclusiva. Como bônus, isso aumenta o faturamento das organizações. Ainda assim, o preconceito arraigado nas pessoas se torna uma barreira que precisa, aos poucos, ser quebrada.
Então, não dá para fazer nada de diferente? Claro que sim! Precisamos conhecer os direitos e deveres legais das pessoas e nos movimentar para mudar o que é possível, começando por nós mesmos. Em breve, viveremos em uma sociedade mais consciente e acolhedora. Afinal, cada um de nós também pode ser agente de mudanças.

O que você pode fazer para iniciar mudanças sem se expor

Você já entendeu que não são somente as empresas que têm responsabilidade de disseminar a aceitação, preparar os líderes para serem inclusivos e apoiar a diversidade, certo? Os profissionais também podem e devem fazer valer sua posição e têm o seu papel. Então, cada um de nós pode ajudar esse grande tsunami de mudança (ainda que ele comece como uma marola).
Separamos algumas dicas de consultores e especialistas que podem ajudar você a se sentir mais representado ou ainda fazer a diferença no ambiente de trabalho, seja para causas LGBTQIA+, seja para discriminações étnicas, religiosas e sexuais… Enfim, todas as formas de exclusão.

  • Fique incomodado e não aceite passivamente que este seja um país ainda tão violento contra pessoas LGBTQIA+, que morrem somente por serem que são. O incômodo demonstra que algo está errado. No caso, muito errado.
  • Saia da apatia e se mobilize. Ninguém precisa ser LGBTQIA+ para lutar contra a discriminação de gênero.
  • Tenha consciência dos seus próprios preconceitos. Somos humanos e todos nós temos ideias preconcebidas sobre as coisas. Ter consciência de quais são essas ideias preconcebidas é o primeiro passo para evitar comportamentos discriminatórios.
  • Se ouvir piadas ou comentários discriminatórios no ambiente de trabalho, não ria. Você não precisa se levantar e agredir quem tem esse hábito, mas não rir significa que você está, de forma silenciosa e respeitosa, declarando sua oposição ao comportamento discriminatório dos outros.
  • Se possível, converse com a pessoa que fez a piada discriminatória. Explique que tipo de sentimento isso pode causar. A grande mudança, na verdade, começa com cada um de nós.
  • Se você é líder, saiba que tem uma responsabilidade a mais em disseminar comportamentos inclusivos. O que começa com o próprio exemplo: seja uma pessoa inclusiva e tenha atitudes que apoiam a diversidade.
  • Tem alguma ideia interessante ou ação que pode ajudar a mudança de comportamento das pessoas dentro da empresa? Procure o seu RH e converse com alguém. Pode ser um passo importante para a empresa iniciar ações sociais e de mudança.

A única forma de mudar o mundo é dar um passo de cada vez. E, quem decide caminhar, somos nós. Bora fazer diferente?

Se você, que está lendo esse texto, tem dúvidas sobre os temas acima ou quer saber mais sobre o assunto, deixe um comentário pedindo o tema de seu interesse. Nós teremos o maior prazer em pesquisar e responder.

Fontes e referências

https://vocesa.abril.com.br/voce-rh/como-lutar-contra-a-homofobia-no-mercado-de-trabalho/
https://www.acidadeon.com/campinas/cotidiano/colunistas/NOT,0,0,1522885,homofobia+no+ambiente+de+trabalho.aspx
https://www.geledes.org.br/35-anos-e-expectativa-de-vida-de-transexuais-no-brasil/
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/19/internacional/1553026147_774690.html
https://stj.jusbrasil.com.br/noticias/154275355/o-direito-dos-individuos-transexuais-de-alterar-o-seu-registro-civil
https://exame.com/negocios/as-15-melhores-empresas-em-diversidade-e-inclusao/

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