ENTRETENIMENTO E RESPONSABILIDADE – UMA MARCA REGISTRADA DAS SÉRIES FILIPINAS.

ENTRETENIMENTO E RESPONSABILIDADE – UMA MARCA REGISTRADA DAS SÉRIES FILIPINAS.

Sim, eu sei o quê vocês estão pensando: Lá vem o Militante, militar de novo e vocês não poderiam estar mais certos quanto a isto. Quem acompanha minhas colunas aqui na Boys Love Brasil, sabe o quanto eu sou encantado por falar de assuntos sérios. Sei que muitas pessoas não gostam de ouvir certas coisas, inclusive até existem algumas que acham que séries BL por ser um conteúdo de entretenimento, possuem a liberdade poética de tratar de assuntos LGBTQIA+ de forma relativizada e superficial. Há em casos mais extremos ainda, aquelas pessoas que acreditam e defendem veemente que séries BL não tem nada haver com a comunidade LGBTQIA+. Porém, as Filipinas estão aí para provar justamente o contrário e é disso que eu vou falar.

Antes de propriamente começar a matéria, eu quero deixar bem claro para as canceladoras de plantão, que este texto não está sendo feito com o intuito de desmerecer qualquer outro país que produz BL’s, até porque, sabemos que países como a Tailândia, por exemplo, foi o um dos pioneiros nesse gênero de séries. Dito isso, vamos lá “viadinhos”!

Vamos começar falando um pouco sobre como eles desenvolvem as histórias e a forma como elas são contadas. De “GameBoys” até a recém estreada ‘Quaranthings”, elas estão tratando do tema descoberta da sexualidade e autoaceitação de maneira muito bem trabalhada, sabendo mesclar perfeitamente entretenimento, romance e assuntos de relevância social, para a comunidade LGBTQIA+. E o melhor de tudo, é que eles não tentam mascarar com falas veladas a relação da série e representação de pessoas que possuem uma orientação sexual que não é a tida como certa pela parte preconceituosa e conservadora da sociedade.

Mas falar é fácil e até papagaio fala, não é? Então vou provar através de fatos e falas que já ocorreram nas séries, para fazer valer o meu texto e a minha crescente admiração pelas séries Filipinas. Vou começar aqui, pela minha série queridinha “My day”. Uma série que começou de forma que não me agradou, de repente, passou a ocupar um espaço enorme em meu coração, não só pelos protagonistas que são lindos, mas principalmente pela forma responsável com que trata assuntos sérios e porque sabe majestosamente, mesclar tudo isso com um humor pastelão sem ficar maçante. Cabe aqui, destacar algumas das muitas falas e cenas que elevou o nível de “My Day” há um patamar altíssimo. Quero começar pela cena em que finalmente Kim e Ace têm uma conversa séria sobre o relacionamento deles. –E meu Deus! – Que cena linda, emocionante e bem trabalhada, nela ao contrário do que vemos em muitas séries, tivemos um diálogo maduro e uma aceitação pacífica, repare que eu falei pacífica e não feliz, da realidade do que realmente significava o relacionamento deles para ambos. Citarei aqui, dois trechos dessa cena. Primeiro uma fala do Ace mostrando que apesar de difícil, a verdade é sempre o melhor caminho:

“Kim, eu não vou me forçar a gostar de você, porque sei que no fim das contas, nós dois sairíamos machucados”.

Ao contrário do que constantemente vemos por aí, Ace preferiu ser honesto consigo mesmo e com a garota que o amava, ao invés de enganá-la e tentar um relacionamento além da amizade com ela. Em contrapartida, tivemos uma Kim que apesar de estar sofrendo, entendeu o lado do Ace  além de garantir que não iria deixar ele desamparado, ela disse: “Se é isso que você sente, então eu posso somente aceitar”. Kim fala se referindo aos sentimentos que Ace tem por ela e por Sky.

“Se é isso que você sente, então eu posso somente aceitar”.

Para não me alongar muito em My Day, e não acharem que eu estou favorecendo e aclamando demais a série, (na verdade eu estou mesmo e fod****) eu gostaria de destacar uma das cenas mais lindas e necessárias que aparece no trailer: “Você tem que ser forte, tem que se amar, tem que confiar em si mesmo, lembre-se que você não está sozinho e você sempre terá a mim, terá a nós”. Esse é o conselho que um dos amigos do Ace, que também é ligado a comunidade LGBTQIA+ fala para ele durante uma conversa. São falas assim, que vão muito além do clichê batido de todas as séries “amor não têm nada a ver com gênero”, que faz com que as Filipinas trabalhem de forma lúcida, toda a amplitude das pautas ligadas as pessoas LGBTQIA+.

“Você tem que ser forte, tem que se amar, tem que confiar em si mesmo, lembre-se que você não está sozinho e você sempre terá a mim, terá a nós

Deixando My Day um pouco de lado, quem me conhece aqui das colunas da BLB ou até mesmo do meu twitter pessoal, sabe o tanto que eu falo sobre a forma que os BL’s tratam os personagens afeminados, deixando eles para ser um alívio cômico e muitas vezes, até são ridicularizados pelos protagonistas gatos e super másculos das séries. Eis então que as Filipinas vieram mais uma vez, para mostrar como é que se faz e nos presenteou com “Even After”, uma série que traz um protagonista afeminado e que se impõe, sabendo o que quer e aonde quer chegar. Even After é uma séria tão gostosa de se ver, porque apesar do tom de comédia, mostra sim, que as bichas mais afeminadas não são somente aquela mascara de felicidade e chacota que a maioria dos BL’s pintam.

A série produzida e estrelada por Kelly Fontanilla mostra a todos o que eu já venho falando há tempos e tempos, dá sim para criar histórias maravilhosas, com personagens fora do padrão estético que as sociedades ao redor do mundo definem como padrão de homem perfeito e colocar personagens afeminados como o centro da história e, não apenas como uma parte insignificante dela. Pegando o gancho de personagens afeminados eu quero falar um pouco de “Quaranthingis” a recém estreada série, está nos apresentando a história de Judah e Rocky, além da descoberta do amor para Judah e da fluidez da sexualidade para Rocky. Mas porque eu usei o gancho do protagonismo de personagens afeminados para entrar nessa nova série?

Even After: The Series – Pi Fansub

Simples! Quem, assim como eu, está acompanhando a série já percebeu que Judah está longe de ser um padrão de homem forte e musculoso que é retratado como ideal na maioria dos BL’s e o melhor, ele nem tenta ser. Por outro lado, temos o Rocky que apesar de ser o próprio estereótipo de macho alfa, não se intimida ou se enfurece com os toques e com os olhares de Judah. A série até o momento, está conseguindo trabalhar de maneira responsável e educativa, as descobertas dos meninos. Isso fica exemplificado quando Judah no auge da sua insegurança, causada por uma aceitação familiar defasada, diz que se Rocky descobrisse tudo sobre ele, o menino não iria mais gostar dele então Roky responde: “Eu só não gosto de pessoas que assediam as outras”.  E mais uma vez, temos as séries Filipinas provando que não precisa ter relacionamento abusivo para ter um plot cativante.

“Eu só não gosto de pessoas que assediam as outras

Saindo um pouco do quesito personagens, vamos passar para relações familiares. Por aqui eu devo destacar e aclamar “GameBoys” como a relação da família do Cairo para com a sexualidade, trouxe uma sensação de que o mundo tem solução e haverá uma época em que famílias serão de fato, sinônimo de amor, compreensão e aceitação, aqui eu destaco essa fala maravilhosa: “Eu estou triste meu filho, não pelo fato de você gostar de garotos, mas porque eu errei. Eu errei em não ter deixado você confortável o suficiente para saber que poderia falar comigo e com o seu pai sobre qualquer assunto. E que nós somos sua família e iríamos continuar te amando”. Lógico que falas como essas, infelizmente ainda são raras e de fato, são poucas as vezes que a ouvimos na vida real, seja lá pelo oriente ou aqui pelo ocidente.

Eu estou triste meu filho, não pelo fato de você gostar de garotos, mas porque eu errei. Eu errei em não ter deixado você confortável o suficiente para saber que poderia falar comigo e com o seu pai sobre qualquer assunto. E que nós somos sua família e iríamos continuar te amando

            Esta outra parte digamos assim, mais comum na vida de pessoas LGBTQIA+, sobre a dificuldade da aceitação das famílias, também é retratada em séries já citadas como “Quaranthings” e a recém lançada série “My Extraordinary” onde há um grande preconceito e dificuldade da real aceitação da sexualidade e orientação sexual dos filhos. Mostrando assim o lado menos ficcional e mais real, repare que eu disse real, e não humano do assunto.

Ainda falando sobre relações, eu não poderia deixar de citar aqui as relações de amizade, presentes em “GameBoys”, “Hello Stranger”,“My Day” e “Hook Up”. O apoio e amizade, bem como o carinho e aceitação dos amigos é um processo tão importante na fase de descobertas que eu não poderia deixar de fazer menção aqui a Pearl, de “GameBoys” que muitas vezes agiu como mediadora e incentivadora do relacionamento de Grav e Cai. Temos a Dan de Hook Up, que da sua forma descontraída, ajuda o amigo no processo de descoberta. Como eu poderia não falar também da fortaleza que são os amigos do Mico em “Hello Stranger”, e do Otep e Tauros em “In Between” amizades que são verdadeiras e que apoiam, incentivam e aconselham aqueles que estão ao seu redor.

            Já que eu citei “Hello Stranger” e “Hook Up”, vou usar essas séries para exemplificar a responsabilidade com que os roteiristas filipinos tratam os processos de descoberta da orientação sexual. Comecemos então por “Hello Stranger”.  Eu juro que quando eu iniciei a série, achei que iria ser aquele clichê ambulante do jogador popular fazer o nerd mais inteligente da turma se apaixonar por ele. E de fato houve isso, contudo, o que eu não contava era que o jogador popular e bonitão, também iria se apaixonar e não iria sair correndo e negando tudo na primeira oportunidade. A responsabilidade e leveza com que os roteiristas trataram de maneira distinta os conflitos e sentimentos internos do Mico e do Xavier, culminaram em um final em que não foi preciso sequer um beijo, para provar que os dois eram extremamente loucos de amor um pelo outro e que, estavam dispostos a viver esse amor.

Hello, Stranger - ORIENTAL LINE Hello, Stranger Séries

 “Hook Up”, pode não ser tão popular igual “Hello Stranger” ou “GameBoys”, no entanto, nos mostra fielmente, de uma maneira real e menos fantasiosa, os conflitos em relação às descobertas da sexualidade e o medo eminente de entrar em um relacionamento, que todos nós possuímos. Mark e Henry, nos presenteia com ótimas atuações, sentimentos e conflitos reais  sobre amor, abandono e família, faz com que nós esqueçamos toda a dificuldade que foi gravar uma série em meio há um Lockdown  e mais ainda, faz com que a gente não note que a série teve um baixo orçamento. Ciúmes, medo do abandono e até mesmo brigas desnecessárias, são nos apresentadas de forma a pensarmos que tal coisa poderia acontecer com nós mesmos.

Hook Up: A Homemade Series – Pi Fansub

Respeitar o tempo e o espaço do outro, é algo que até muito recentemente a gente não via em séries BL’s, o que víamos era uma obrigação demasiada que um personagem impunha ao outro de ter que gostar dele. “Amoré” uma série que pode parecer confusa aos olhos de quem assiste pela primeira vez, contudo se formos analisar as mensagens que a série  nos trouxe até agora, nós podemos destacar a paciência e o respeito que o Will tem pelo Joey ao esperar o tempo e o preparo do menino, em vez de o forçar a namorar com ele. “Amoré” também nos mostra a maturidade, compreensão e empatia que poucos de nós temos, quando Will mesmo sabendo de quê Nuan também gostava de Joey, ao invés de exigir que Joey se afastasse dele como acontece na maioria das vezes. Will aconselha Joey a conversar com Nuan e esclarecer as coisas, para evitar que o outro sofresse no futuro.

Bem, logicamente as comparações e a leitura das séries que eu fiz aqui, foi feita de maneira muito resumida e cada uma das séries citadas no texto para exemplificar situações, merecem uma atenção individual e uma análise mais detalhada e única. No entanto, de fato dá para perceber que apesar das Filipinas serem relativamente novas na indústria das séries BL’s, ela veio com uma proposta, responsável e inclusiva, isso fica bem evidenciado quando a gente descobre que teremos protagonistas LGBTQIA+ assumidos em séries como “BoyBand Love” e temos em “Quaranthings” o protagonista que é pansexual assumido. E teremos também os protagonistas da série “Lakan” que realmente são um casal na vida real.

Amore - Asia BL Yaoi

Eu sei, sim, que apesar de estarem no mesmo continente as culturas e povos dos países asiáticos são diferentes umas das outras, tenho plena consciência que esses acertos pontuados aqui nesse texto não exime as séries Filipinas de cometerem graves erros no futuro, e se isso ocorrer, pode ter a plena certeza que eu vou falar sobre.  Pode ser que quem não faça parte da comunidade LGBTQIA+ não entenda o intuito do meu texto e menospreze a importância de se tratar a temática LGBTQIA+ de forma responsável e não apenas como um meio de fazer garotas e garotos se apaixonarem por atores.

Quero ressaltar ainda, a importância da Tailândia na indústria e deixar claro que, eu entendo que processos de mudança são lentos e quando se trata de mudanças culturais, mais lentos ainda. No entanto, está na hora das produtoras, escritoras e diretores começarem a ver séries BL’s também como um instrumento que pode dar gás a mudanças sociais e culturais, ou será que iremos passar o resto da vida justificando erros com o fator cultural?

Bem gays , aqui eu me despeço com um recadinho sobre a minha pessoa:

Será Lília Cabral nossa nova Nazaré Tedesco? - Coisas de TV

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