Dream Boat

Dream Boat

Amor, liberdade e juventude, o documentário do alemão Tristan Ferland Milewski se desenvolve ao redor desses três pilares. Quando abordamos a vida de cinco homossexuais de diferentes nacionalidades que estão em busca de um escape do cotidiano que vivenciam. O documentário se passa num cruzeiro exclusivo para homens gays e dura um total de sete dias com três mil homens a abordo. Presenciamos uma excelente transição entre as alegrias e liberdades que o espaço proporciona a esses homens, e os tristes relatos de homofobia, opressão e violência que muitos ali compartilham. Prepare-se, pois a história contada aqui é o que rotulamos de verdadeira montanha-russa de emoções.

         Passeamos pelas cabines do cruzeiro e vamos conectando e costurando as vidas dos personagens. São eles: Marek, o polonês de 24 anos que se mudou para Inglaterra, pois estava fugindo da homofobia da família. Dipankar, o indiano afeminado que está em busca do amor, mas ainda luta contra a insegurança do seu corpo. Philipe, o francês que ficou paralítico por conta de uma meningite, mas traz uma história linda de amor entre seu parceiro há mais de 20 anos. Martin, um fotógrafo australiano que compartilha sua experiência sendo portador do HIV. E por último, o Ramzi, um palestino que por conta da violência contra homossexuais fugiu do seu país e se refugiou na Bélgica.

         Índia, Polônia, Palestina, França e Bélgica, nos deparamos com as políticas e crenças religiosas de cada lugar, e como elas moldaram uma sociedade não inclusiva para as relações homoafetiva. E como isso afeta a jornada dos cinco indivíduos que acompanhamos nesse lindo documentário. Não precisa se preocupar, pois não encontrará spoilers nesta matéria, mas sim uma insaciável vontade de acompanhar as histórias de primeira mão. São relatos que nos tocam, e nos fazem refletir sobre situações que por muitas vezes nos damos como regulares na sociedade, mas que na verdade são privilégios para poucos. Quando você precisa dizer adeus ao seu país, e a sua família, deixar para trás seus amigos, pois não deseja a eles a discriminação que você sofre por ser gay, é necessária muita coragem para seguir com a cabeça erguida. E estar rodeado por pessoas de mente aberta, que compreendem o sentimento, é o que dá esperança para seguir em frente.

No documentário, somos abordados pela realidade que muitos da comunidade gay passam, contar para a família a sua orientação sexual. “Uma mãe nunca odiaria o filho” é o que Ramzi, um dos passageiros comenta, e é o que nos leva a um abrangente debate: estaríamos dispostos a enfrentar a reação de nossos entes queridos quando nós “saíssemos do armário”? Podemos ter 100% de certeza de como reagiram? São esses tipos de questionamentos que somos abordados durante o documentário. Esse é um dos medos mais presente no cotidiano dos homossexuais, se abrirem para alguém e acabar vendo todos aqueles que você confiava virando as costas. E também, não só como a família reagiria, mas sim a sociedade! Sendo que em vários países ainda é considerado um crime ser gay.

            Quando deixamos essa família de sangue para trás, abrimos uma porta para a família Queer, aquela que você escolhe. Uma família que te apoia, mas como toda a família nem tudo é perfeito. O documentário mostra bem a realidade desse universo, que nem sempre está rodeado em rosa e em glitter. E que mesmo dentro da família Queer que você escolhe, ainda há espaço para julgamentos. Você é muito másculo? Muito afeminado? São esses questionamentos que Dipankar e Marek levantam em uma conversa. Também somos inseridos na complexidade de um relacionamento amoroso, e como cada um atinge o ideal que imagina para uma relação. E junto desse ideal vem a comparação da relação homoafetiva e da heterossexual. Relacionamentos profundos que vão além do sexo casual, como se sentir amado e não como um objeto. Quando vamos além da insegurança em relação ao corpo, dos pré-julgamentos, quando se passa todas essas camadas, percebemos que todos estão em busca da mesma coisa, um lugar para amar e se sentirem seguros, e podemos sentir bem esse amor através de Philipe e seu companheiro, o mesmo vale para Ramzi e seu parceiro. Um relacionamento simples, com alguém que ame você pelo o que você é, alguém que veja além do corpo, quem aqui também se identifica com o que o Marek busca? Afinal, todos nós queremos amar e ser amados da forma mais pura que existe.

            A religião é algo presente na vida de todos, e ela acaba deixando uma marca, seja ela positiva ou negativa. Muitos acreditam que ela impõe uma maneira de como devemos pensar, falar e agir. Do que é certo e do que é errado. Somos inseridos na realidade de cada um dos cinco passageiros que acompanhamos, daqueles que foram condenados pela Igreja, da qual fugiram de países extremamente católicos. Vemos as mais tristes emoções, solidão, depressão, a luta contra as expectativas, insegurança, perdas, morte, mas também vemos os sentimentos mais puros do ser humano, a busca pelo amor, aceitação, um relacionamento duradouro que vá levar ao envelhecimento juntos.

            Sete dias de excursão, muitas festas, pessoas que de desconhecidas se tornam amigas e dali surge novos sentimentos. Quando avisei que esse documentário é uma montanha-russa de emoções, não estava brincado. Em um momento você está chorando com os relatos mais íntimos de cada um, e no outro está rindo das fantasias que eles escolheram para as festas, está morrendo de amores pelas histórias românticas do Philipe. Quando você percebe que o fim está chegando, começa a pensar “Mas e agora? Com o cruzeiro ao fim, como fica a vida de cada um?”, você cria um laço especial com eles e torce para que eles encontrem o que tanto procuram ou desejam.

            Você se diverte junto com eles, você sente a dor deles. Vemos os mais simples e profundos desejos que eles possuem. Navegando entre todas essas emoções,  somos atingidos com sorrisos e lágrimas, histórias de superação e motivação, percebemos que temos mais em comum do que imaginávamos. O documentário é rápido, emocionante e te faz querer abraçar cada um a bordo e simplesmente dizer a eles “está tudo bem, você não está sozinho”. E somos marcados com conselhos que com certeza levaremos para vida. Na conclusão, você percebe que esse cruzeiro é muito mais do que sete dias de festas com gente bonita ao seu redor, é uma sessão de terapia. O documentário está disponível na Netflix! E deixo para vocês uma das mensagens que mais me marcou entre muitas, que com certeza levarei para vida, como diria Philipe:

Aproveite a vida. Temos que apreciar a vida. Porque ela é bela.

Escrito por: MEG

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