Conheça o povo Uigur, o novo foco de extermínio do governo chinês

Conheça o povo Uigur, o novo foco de extermínio do governo chinês

As razões que me motivaram a falar sobre o povo uigur são variadas, desde uma vaga lembrança sobre o breve conteúdo que tive durante meu ensino médio até reportagens lidas ao acaso e, o mais recente, a premiação do Emmy 2020 com a vitória do canal televisivo britânico ITV com o documentário “Disfarçado: Por dentro do Gulag Digital da China” na categoria “Atualidades”, em que mostrou a vigilância do governo chinês sobre os uigures.

Seja como for, apresento para quem desconhece o povo uigur.

Uma breve introdução

Localização geográfica de Sinkiang, onde reside a população uigure, região noroeste do país.

Os uigures são uma minoria étnica muçulmana que atualmente vivem em Sinkiang (ou Xinjiang), território autônomo localizado a noroeste da China e que historicamente faz parte da conhecida “Rota da Seda”, responsável por interligar o comércio de tecidos e outros produtos entre as duas partes do planeta desde Idade Antiga.

Estima-se que dos mais de 20 milhões de habitantes que residem na região, aproximadamente 11 milhões pertençam a esse grupo.

Falantes do idioma que carrega o nome da etnia, o uigur, esse povo possui maior aproximação com países da Ásia Central, sobretudo com a Turquia e o Turquestão, do que com a própria China, tanto é que no início do século XX o território conquistou a sua independência, mas após a ascensão de Mao Tsé-Tung ao poder, em 1949, o território foi anexado novamente, permanecendo dessa maneira até hoje.

Onda de Perseguições

Após a tomada de poder pelo Partido Comunista Chinês (PCC) e, posteriormente, após a dissolução do Movimento para a Independência do Turquestão Oriental (como também é conhecida a região de Sinkiang), em 2003, medidas austeras tomadas pelo governo do país têm sido alvo de críticas da comunidade internacional. As razões são variadas. Aliás, não é de hoje que se ouve falar acerca do autoritarismo do regime chinês. Porém, o grande pretexto utilizado pelas autoridades chinesas para perseguir as minorias étnicas são: a busca pela unidade política no país, isto é, a plena integração de todo o território pertencente à República Popular da China (RPC), o combate ao terrorismo e a reorientação ideológica dos dissidentes.

Na prática, desde a última década, sobretudo nos últimos anos, o que a China vem acusando falsamente os uigures de atividades ilegais como terrorismo e também de práticas separatistas, construindo, cada vez mais, “centros de reedução política” para onde milhares deles são enviados, agências internacionais de notícias afirmam que mais de um milhão de pessoas foram enviadas para esses centros, que na visão de alguns analistas parecem “campos de concentração”.

De fato, o mundo está diante de uma verdadeira “limpeza” étnica, já que além da retenção obrigatória de pessoas nesses locais, onde, segundo relatos, ocorrem uma verdadeira “lavagem cerebral” ou conversões para “cidadãos chineses ideais”, isto é, obedientes ao governo e partidários de seus princípios, foi comprovado por meio de documentos, reportagens clandestinas realizadas na região e relatos de ex-moradores ou até mesmo frequentadores desses locais a prática de abortos forçados e a esterilização de mulheres, visando o controle populacional e, consequentemente, o fim dos uigures.

Dentro deste cenário, outra política amplamente utilizada pelo governo chinês é o incentivo da migração massiva de chineses pertencentes à etnia han (“chinês puro”), para Sinkiang, que é território uigur, a fim de promover casamentos interétnicos e “diluir” a população. Atualmente, ao contrário dos dados oficiais chineses, a etnia uigur está diminuindo aceleradamente, enquanto o percentual do povo han cresce.  

O fim da privacidade pessoal

A presença massiva de câmeras espalhadas pelas ruas chinesas também fazem parte do cotidiano de quem mora nesta região – já que de toda a China, é o local com maior e mais desenvolvido sistema de vigilância. Esse padrão definitivamente abole qualquer tipo de liberdade individual da população, uma vez que já foi constatada a utilização da tecnologia de reconhecimento facial pelo país.

Apenas relembrando, esse sistema é alimentado a partir de dados públicos coletados pelos órgãos do governo de todos os locais, desde instituições como escolas, empresas, cartórios e outros. Dessa forma, por meio da simples análise facial, os agentes de segurança são capazes de puxar todo o histórico criminal, profissional e também escolar dos indivíduos.

Essa fiscalização excede o plano físico e também se encontra virtualmente por meio de mecanismos como censura e monitoramento contínuo das redes sociais. Ou seja, o governo sabe tudo sobre todos.

Uma geração desamparada

Crianças uigures em um dos centros de reeducação em formato de escola. Foto: Reprodução

Além da prisão de adultos, destaca-se também a presença de “escolas diferenciadas” próprias para crianças e jovens uigures. Há uma extensa quantidade de relatos de famílias que tiveram seus filhos retirados à força pelo governo chinês para serem encaminhados a campos de reeducação em formato de colégios, onde além do conteúdo usual, eles cantam hinos nacionalistas (Chinês e do Partido Comunista) e aprendem a cultuar os princípios e valores defendidos pelo Estado.

Na prática, isso tem implicações severas nos âmbitos humano, histórico e cultural, já que esse tempo em que essa geração irá passar nesses locais serão responsáveis por realizarem a moldagem de uma identidade étnica que não lhes pertence originalmente, isto é, os valores culturais dos uigures como hábitos alimentares, idioma, religião e vestimentas, por exemplo, não serão ensinados e, consequentemente, acabarão sendo ostracizados.

Isso caracteriza, sem dúvidas, um genocídio cultural de proporções imensuráveis.

Conclusão

O que se conclui a partir da análise desse comportamento no mínimo “desumano” é que o país, cada vez mais, tem tomado medidas chocantes e irracionais com os seus cidadãos, do ponto de vista humanitário. O mundo já sabe parte do que acontece lá dentro, mesmo que as autoridades chinesas neguem todas as acusações. Agora a grande questão que fica é: até quando?

Apenas para mencionar o que se tem feito a respeito do assunto, no momento está em andamento um processo realizado por um tribunal independente em Londres liderado pelo advogado de direitos humanos, Sir Geofrrey Nice QC, que investiga se as supostas acusações de abuso dos direitos humanos do governo chinês contra a minoria uigur se configuram como genocídio ou crimes contra a humanidade.

Os organizadores do tribunal esperam realizar duas audiências públicas em Londres no próximo ano, cada uma com duração de vários dias. O veredicto é esperado até o final de 2021.

É válido lembrar que Nice também já presidiu outro tribunal independente sobre a Extração Forçada de Órgãos de Prisioneiros de Consciência na China, conhecido como “Tribunal da China”, que determinou, no ano passado, que estava “sem dúvida” quanto à extração forçada de órgãos com a obtenção de lucros sancionada pelo Estado, fato que ocorre na China há anos e “em uma escala significativa”.

Além disso, países como os Estados Unidos tem impedido a entrada de produtos chineses provenientes de Sinkiang, alegando não querer a entrada de produtos fabricados a partir do “trabalho forçado”.

Será que o fim dessas perseguições chegará um dia? Não sei. É uma pergunta ainda sem uma resposta, mas espero um dia poder constatar que a resolução desse problema seja outra, desta vez melhor, o mais breve possível. Continue nos acompanhado para mais informações sobre o assunto.

Referências

Documentação que confirma o que se passa dentro dos “campos”: BBC e NYTimes

Sobre as “escolas diferenciadas” para as crianças uigures: BBC e VICE (vídeo em inglês)

Matérias sobre perseguições: G1, Gazeta do Povo, Istoé

Matéria sobre a relação entre a Disney, o filme ‘Mulan’ e o Sinkiang: Correio do Povo

Esterilização, aborto forçado e outros abusos: Expresso e AP (em inglês)

Vencedores do Emmy 2020 e o documentário vencedor: G1 e Robin Barnwell (em inglês)

Tribunal independente britânico criado para averiguar o caso dos uigures: Epoch Times

Se você gostou dessa matéria, por favor, não deixe de curtir e expor a sua opinião. A sua interação é muito importante para a manutenção do site. Além disso, não se esqueça de seguir as nossas plataformas digitais, por lá, você tem acesso a todo o conteúdo produzido pela página como notícias, capítulos de novels, trailers, reviews e tudo mais.

A Boys Love Brasil agora tem uma loja! Lá, você pode encontrar acessórios como camisetas, canecas e almofadas do seu dorama, banda de k-pop ou anime preferidos. Se você ainda não conferiu, acesse clicando aqui.

Além disso, a BLB agora também possui uma editora! Se você tem interesse ou conhece escritores que produzam histórias, sobretudo LGBTQ e que gostariam de publicá-las online. Entre em contato conosco. Para acessar o site, clique.

Para acessar o site das Novels Boys Love, clique aqui.

Para acessar o nosso canal do Youtube, clique aqui.

Para nos seguir no Instagram, procure por: @boyslovebrasill ou clique aqui.

Para nos seguir no Facebook, procure por: Boys Love Brasil ou clique aqui.

Para nos seguir no Twitter, procure por: @bloversbrasil ou clique aqui.

Para nos seguir no Telegram, procure por: Boys Love Brasil ou clique aqui.

Compartilhar esta publicação

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments

0
Would love your thoughts, please comment.x
()
x
Optimized with PageSpeed Ninja