Conheça as “ladyboys” tailandesas

Conheça as “ladyboys” tailandesas

Hoje a nossa conversa poderá proporcionar uma mistura de sentimentos, talvez cause surpresa para alguns, tristeza para outros, até mesmo curiosidade, seja como for, vamos falar um pouco sobre as famosas “ladyboys” da Tailândia.

Para começarmos, você sabe o que significa “ladyboy”?

A construção do termo

Acredita-se que a origem da palavra “ladyboys” (que do inglês pode ser traduzido literalmente como “garota-menino”) provém da presença de soldados americanos na Tailândia devido à participação dos EUA na Guerra do Vietnã nos anos 60. 

Pelo fato da Tailândia ser espacialmente próxima ao Vietnã e sempre manter uma posição de “neutralidade” diante da Guerra, sua postura “anti-comunista” ficou evidente nos anos posteriores, de qualquer forma, o país, desde então  é conhecido pelos suas praias paradisíacas, por isso serviu como local de descanso para os combates do conflito. 

O termo tailandês “Kathoey” é usado para designar mulheres trans ou homossexuais afeminados, no entanto, com intuito de facilitar a compreensão pelos turistas, foi criada a palavra “ladyboys” para referir-se justamente a essas pessoas, que desde aquela época eram bastante comuns em áreas turísticas. 

Dessa forma, o termo em inglês se trata de uma construção ocidental para designar mulheres transexuais que costumam estar presentes em áreas de contato com o estrangeiro, isto é, de turismo. 

Há, porém, outro nome em tailandês usado para se referir a essas pessoas, “phuying”, uma forma reduzida da expressão “phuying praphet song”, cuja tradução é algo como “um segundo tipo de mulher”. Há uma discussão sobre o uso desses termos, uma vez que determinada parcela da população trans considera o termo “kathoey” difamatório, dessa forma, muitas chamam a si mesmas apenas de “phuying”.

A origem desse caráter “difamatório” é a pornografia. Internacionalmente, no ramo da indústria pornográfica, é comum a utilização do termo “ladyboys”, tradução direta do termo “Kathoey”, por isso se opta pelo uso da outra expressão, pelo menos entre os tailandeses. 

Além disso, para grande parte da sociedade tailandesa a expressão “Kathoey” é usada para designar pessoas do “terceiro gênero”. 

Terceiro gênero?

Para entender um pouco melhor sobre o significado da expressão, é preciso recorrer à sociologia, em específico, aos estudos sobre gênero – assunto que tem se tornado cada vez mais comum na atualidade.

Para começo de conversa, é preciso conhecer a definição de “gênero”. Esse termo hoje é popularmente usado na expressão “identidade de gênero” – uma construção social, que na prática é como o indivíduo se enxerga na sociedade em que vive.

Essa conversa sobre identidade dialoga diretamente com outro conceito importante pertencente à biologia, que é o “sexo biológico”, isto é, as características biológicas de um indivíduo como hormônios, genitálias e cromossomos sexuais. Na prática, existem dois sexos biológicos, um que chamamos feminino e outro masculino.

Contudo, há também outra classificação que requer nossa atenção para esta conversa, porém diferente da usual segmentação “binária” em homem e mulher, ela se apresenta como uma condição biológica: são as pessoas intersexo, isto é, que nascem com uma anatomia sexual com características nem integralmente pertencentes à condição feminina nem à masculina. 

É então nesse contexto que cresce a importância da decisão de alguns países em reconhecer a presença de um “terceiro gênero”, isto é, de indivíduos que não se sintam pertencente à classificação binária padrão, tais como Alemanha, Nepal, Paquistão, Bangladesh e Índia.

Essa decisão é muito importante, porque de certa maneira visa eliminar, ainda que parcialmente, algum tipo de eventual desconforto ou discriminação de pessoas que não se encaixam no padrão, já que a aceitação do “terceiro gênero” permite a autodeterminação do corpo, seja pela forma como o indivíduo se veste ou como deseja ser chamado pela sociedade (sim, a questão do nome social também se faz presente nesse debate). 

Mas o que isso tem a ver com as “Kathoey”? 

A amarga realidade 

Embora a Tailândia tenha a fama internacional de possuir a capital mais gay do mundo (Bangcoque) e de fato se apresentar como um país que, em comparação com outros ao seu redor (muitas vezes com religiões de matrizes muçulmanas conservadoras), mais “tolerante”. No entanto, conclui-se que  esta é uma propaganda no mínimo “forçada”.

É verdade que o país é famoso pela indústria acessível de cirurgias de mudança de sexo (um fator atrativo para muitos estrangeiros todos os anos), porém é preciso lembrar, por exemplo, a opinião que o Ministério da Defesa tinha sobre os transexuais, considerando-os pessoas portadoras de deficiências psicológicas crônicas. Além disso, o budismo, principal religião do país, ainda que não seja contra essa parcela da população, considera ser transexual o resultado dos pecados cometidos em vidas passadas. Ou seja, não é uma “escolha” ser transexual, mas é por causa do seu “karma ruim”. 

Acontece que a discriminação continua das mesmas formas, a exclusão social se faz presente e isso é sentido, sobretudo, para as pessoas transexuais, que na hora de procurar um emprego formal, encontram bastantes dificuldades devido ao preconceito. É por isso que muitas das “Ladyboys” acabam no ramo da prostituição.

Para se ter uma ideia, existe uma cidade litorânea localizada à oeste do país conhecida internacionalmente como a “capital do sexo”, trata-se de Pattaya, que até a década de 1960 era apenas uma pequena vila de pescadores, porém após a chegada daqueles soldados americanos que foram mencionados anteriormente, tornou-se um local conhecido pela presença massiva da prostuição, do turismo sexual e também pelas famosas “ladyboys”.

Como dito, pelo fato de serem excluídas da sociedade, é muito comum que muitas “kathoey” possuam uma trajetória de vida bastante sofrida e, pelo fato de não obterem apoio em casa, é corriqueiro o fato de começarem a se prostituir antes de completarem a maioridade, caracterizando, assim, a presença de menores nos ambientes de turismo – uma das, senão a principal, fonte de renda do país.

É em Pattaya onde se localiza o maior número de “Kathoey” no país. 

Há perspectivas de melhora?

Kanwara “Esmon” Kaewcheen (meio), 21, é coroada Mis Tiffany’s Universe 2018 em Pattaya. Teerachaya ‘Book’ Pimkittidej (direita), 22, e por último Voravalan ‘Nam’ Taveekarn, 24. (Foto por Apichit Jinakul)

É difícil enxergar um futuro promissor para essa questão ao se basear, por exemplo, na pesquisa realizada, em 2012, pelo The US National Library of Medicine que constatou a alta taxa de soropositivos entre as “ladyboys”, que muito provavelmente tenham sido contaminadas pela realização de práticas sexuais com os clientes sem o uso de proteção, o que pode acabar aumentando o número de infectados não só dentro do país, mas também no países de origem dos turistas. 

Além disso, em 2015, um projeto de lei formulado, meses após o último golpe militar no país, propunha a discussão de uma nova constituição  que incluísse diretos para a população LGBT, como o reconhecimento de um terceiro gênero. Essa ideia foi recebida com bastante entusiasmo pelos tailandeses, porém não foi levada adiante, pois a Constituição de 2017 foi aprovada e não há nenhum artigo que menciona a comunidade. 

O caráter inflexível do governo tailandês em permitir a designação de gênero no documento de identidade perpetua a presença de situações constrangedoras para os transexuais, como a questão dos passaportes de viagem. 

“Sou uma mulher, mas meu documento de identidade diz que sou homem. Se alguma vez me prenderem, irei para uma prisão para homens. Se vou para o hospital, preciso ficar com os homens”, diz Nitsa Katrahong, vencedora do Miss Tiffany’s Universe 2014, concurso anual de beleza para transexuais promovido na cidade tailandesa de Pattaya. (El País)

A questão da representatividade

Na contramão de todas as dificuldades enfrentadas por esse segmento que ainda é habitualmente associado ao entretenimento e à diversão alheia, além de vislumbrados com olhares de curiosidade fetichismo, a representatividade trans está crescendo no país.

Além do popular concurso anual de beleza para transexuais (que fizeram ou não a cirurgia de redesignação sexual), criado em 1984. Há também o icônico filme baseado em fatos reais “Beautiful Boxer” (no Brasil, conhecido como “A Luta pela Beleza), lançado em 2013, que conta a história verídica  de Nong Toom, um lutador de boxe tailandês que tem como objetivo ganhar o torneio nacional para poder custear a sua cirurgia de redesignação sexual. 

Jennie Panhan, atriz e apresentadora trans da emissora tailandesa GMMTV. Foto: Reprodução

No ramo do entretenimento, em especial, no mundo dos BLs, marca presença a atriz e apresentadora Jennie Panhan da emissora GMMTV.  Além de Jennie, na esfera política, a Tailândia elegeu, no ano passado, a primeira deputada transexual de sua história, Tanwarin Sukkhapisit, que também é cineasta e inclusive já dirigiu filmes BL como o famoso “Dark Wine In The Dark Night” em 2015.

Tanwarin Sukkhaphisit, a primeira deputada trans da Tailândia. Foto: Reprodução

Entre trancos e barrancos, a história dos direitos da comunidade LGBT, sobretudo dos transexuais na Tailândia é marcada por avanços, mas ao mesmo tempo retrocessos, mesmo que não haja uma legislação que puna essas pessoas, a própria sociedade cria mecanismos que visam deixá-los na periferia pelo simples fatos de serem quem são.

A partir disso, fica clara a ideia de que as “Kathoey” são um pedaço da sociedade tailandesa, ao meu ver, uma parcela significativa da população os aceita, mas não são todos, e por isso que a questão da exclusão e o fato de muitas acabarem na prostituição já ser o suficiente para entendermos que há um problema que precisa ser resolvido.

Como? Talvez por meio de mais conversa, mais debate e também por meio de representação, não só na TV, mas também na política, na educação, em todos os lugares, porque só quando essas pessoas ocuparem cargos variados na sociedade é que ficará explícito que o seu gênero ou sexualidade não são critérios de avaliação de competência de nenhum ser humano.

Referências

Mais informações sobre as “Ladyboys“: MyLadyBoysDate, TheGayGlobeTrotter e Medium (em inglês)

Artigo de opinião sobre o assunto (em português): Medium

Matéria sobre escritor português que escreveu um livro contando sua experiência com “Kathoey“: Folha

Matéria sobre a proposta de se reconhecer um “terceiro gênero” na Tailândia: El País

Artigo sobre a rotina de Pattaya, a “capital do sexo”: Veja

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DEH

Amei o conteúdo!
É sempre bom ter informações sobre o lado real do país, geralmente nas produções BL o lado político e social fica escanteado, nos dando a falsa impressão que tudo é lindo e fácil na Tailândia.


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