Breve panorama sobre as manifestações na Tailândia

Breve panorama sobre as manifestações na Tailândia

Os protestos que assolam a Tailândia, como já mencionados anteriormente aqui no site, têm uma longa história. Iniciados em Fevereiro deste ano e interrompidos pela pandemia do novo coronavírus, novamente eles emergiram com força quando um famoso ativista político contrário ao governo e também defensor dos direitos humanos, Wanchalearm Satsaksit, desapareceu enquanto estava exilado no Camboja e o governo tailandês nada fez  a respeito. 

Mas toda essa trajetória, assim como as principais reivindicações e o resumo até o grande ato político do dia 19 de Setembro já foram apresentados pela equipe da Boys Love Brasil aqui no site, caso ainda não tenha conferido é só clicar aqui

Esta matéria tem o propósito de atualizar você sobre os principais acontecimentos políticos do país desde o dia 13 deste mês, quando outra onda de manifestações se iniciou, assim tentarei construir pequenos “resumos” diários sobre as decisões, avanços e retrocessos dos protestos. 

Todas as informações e imagens contidas neste texto são provenientes dos jornais tailandeses como Khaosod English, Prachatai, Bangkok Post, Thai Enquirer e The Standard.

Dia 13 (Terça-Feira) – Ensaio Geral 

O que era para ser mais um dia comum na verdade se tornou outra data bastante simbólica para o povo tailandês. No dia 13 foi realizada uma cerimônia pela família real em Banguecoque para homenagear a figura do rei Bhumibol (ou Rama IX), que faleceu em 2016. O evento também contou com a presença de monarquistas e aliados da monarquia, há imagens que mostram, por exemplo, a Rainha Suthida e o rei Rama X cortejando a população.

Contudo, a poucos quilômetros dali, um pequeno levante comandado por ativistas da oposição berrava nas ruas exigindo reformas políticas, fazendo com que cada vez mais pessoas aderissem à passeata. Acontece que o rei, ao saber sobre esse pequeno ato político, não ficou nada satisfeito e ordenou a prisão de todos os líderes do movimento. 

É importante relembrar que constitucionalmente não é ilegal criticar o governo ou protestar em locais públicos, seria diferente caso as críticas fossem realizadas contra a Monarquia, já que a Lei de Lesa-Majestade veda qualquer postura crítica ao rei, e o infrator pode ser punido com até 15 anos de prisão. Em resumo, 21 ativistas foram presos. Há imagens e vídeos do momento em que as tropas levaram à força os manifestantes, deixando nítido o caráter violento da polícia tailandesa. 

Esse contratempo fez as manifestações começarem um dia antes do previsto (ou ensaiarem o que estava por vir), pois grande parte da população que estava no local ficou indignada com as cenas, o que levou muitos a permanecerem até tarde da noite em frente ao quartel em que os ativistas foram levados. 

Dia 14 (Quarta-Feira) – A Greve Geral

O protesto do dia 14 estava marcado para acontecer desde o dia 20 do mês anterior quando Parit, um dos líderes do movimento, anunciou que no referido dia iria ocorrer outro grande protesto, além de uma “Greve Geral”, em que a população tailandesa não iria trabalhar para um governo ilegítimo e impopular. 

Relembro também que a escolha do dia não foi por acaso, há 47 anos neste mesmo dia um levante popular com grande participação estudantil, após incessantes dias de protestos e represálias do governo, conseguiu derrubar o primeiro-ministro da época e forçar o seu exílio. Foi a primeira vez desde a Revolução Siamesa de 1932 que o país teve efetivamente um período democrático, ainda que de curta duração.

Originalmente o horário de encontro estava marcado para às 14h, no Monumento pela Democracia, mas a expressiva movimentação da polícia e dos militares provocaram a sua antecipação, pois os manifestantes tiveram o receio de que a presença de tropas do governo pudessem impedir a reunião dos manifestantes no local.

Dessa forma, o início do protesto foi antecipado para às 8h e para evitar qualquer tentativa de oprimir os manifestantes, foi criada uma corrente humana em volta do monumento. Esse ato não impediu, no entanto, que alguns monarquistas em seus veículos deixassem de assediá-los, há vídeos que mostram motos e carros buzinando e pessoas xingando os manifestantes pró-democracia. 

Ainda sobre os monarquistas, popularmente conhecidos no país como “camisas-amarelas”, nos protestos desse dia muitos deles compareceram de forma expressiva fazendo frente aos manifestantes pró-democracia, porém com uma ressalva, a imprensa registrou alguns “supostos apoiadores do governo” que também fizeram o gesto dos três dedos, difundido entre a oposição e que significa a luta contra o autoritarismo. Dessa forma, muitos dos jornais que realizaram a cobertura do evento utilizaram chamadas como “há um impostor entre nós”, em analogia ao jogo “Among Us”.

O mais curioso desse dia foi a decisão por parte da família real em manter o trajeto original para retornar ao Palácio mesmo após ciente da presença de um grande número de manifestantes próximos do local, dessa forma o mais plausível seria desviar da concentração de pessoas, porém não foi a resolução tomada. 

Assim, a comitiva real que transportava a Rainha Suthida e o filho mais novo do atual monarca de outro casamento passaram no meio do tumulto, com o auxílio dos seguranças foi aberta uma passagem para que a comitiva pudesse chegar ao Palácio. E a cena mais marcante foi as imagens registradas da rainha, que ao passar pela multidão, olha para todos e sorri enquanto milhares de pessoas gritam “nossas taxas”, alusão aos impostos cobrados para bancar a vida luxuosa da monarquia. 

Além disso, é importante mencionar que todas as passeatas em que se registram algum tipo de uso de violência pelos civis, os atores sempre foram os monarquistas, isto é, são apenas eles que procuram meios de provocar os manifestantes esperando alguma reação. Acredita-se que muitos dos que comparecem aos atos políticos sejam forçados pelo governo ou comprados de modo a criar uma imagem falsa de uma sociedade fatalmente bipolarizada entre apoiadores e críticos ao rei e ao governo. 

Dia 15 (Quinta-Feira) – Perseguições em Massa 

Na madrugada do dia 15 foi decretado Estado de Emergência pelo primeiro-ministro Prayut Cha-ochan, que dentre as prerrogativas concedidas ao governo estava incluso: a supressão das liberdades individuais da população e a concentração total do poder nas mãos dos militares, além de delegar o total de poder ao governo, permitindo que decretos de prisões fossem emitidos sem um mandado oficial, e impondo a censura em todos os veículos de informação no país, incluindo mídias online. Além disso, tornou ilegais reuniões com mais de 5 pessoas, visando conter as manifestações, e por último vedou qualquer tipo de crítica formulada contra o governo, independentemente do local (incluindo a internet). Os infratores estarão sujeitos a 2 anos de prisão e o pagamento de uma multa de até  40,000 bahts (aproximadamente 7.178,86 reais). Esse é um dos mecanismo que permite o Estado Tailandês arrecadar dinheiro e se auto sustentar. 

Contudo, diferente do imaginou o governo, em vez de provocar o fim ou pelo menos a atenuação dos protestos (tanto presenciais como virtuais), o decreto insuflou ainda mais os movimentos pró-democracia no país, que deixaram de se restringir a capital e aos grande centros urbanos, agora atingindo também províncias menos industrializadas, incluindo zonas litorâneas.

Não obstante, a partir desse dia o número de prisões cresceu vertiginosamente, além de líderes como a estudante Panusaya Sithijirawattanakul e o advogado e ativista dos direitos humanos Anon Nampha, mais de 100 pessoas foram presas sem um mandado de prisão oficial. 

Dia 16 (Sexta-Feira) – Auge da Repressão

No mesmo horário e local (fim da tarde e no Monumento pela Democracia), os tailandeses se reuniram na capital para manifestar contra o governo, além de reivindicar a soltura dos presos políticos. 

Nesse dia, além da usual mobilização de tropas do governo e de um intensificado esquema de segurança com barricadas e outros dispositivos de defesa, houve o deslocamento inédito de caminhões-tanque. Esse veículos de grande porte continham em seu interior grande quantidade de água misturada com gás lacrimogêneo e, em alguns casos, o azul de metileno, um fármaco de cor azulada que, dentre seus efeitos colaterais devido ao uso desregulado, pode provocar desde a mudança na cor da urina a até anemia hemolítica.

Há vídeos e imagens que mostram pessoas sendo atingidas pelos jatos dos caminhões, que dependendo da distância pode machucar devido à pressão exercida pela água. Além disso, adultos, crianças e idosos gritavam pelas ruas por causa da irritação dos olhos gerada pelas substâncias misturadas à água. Enquanto as forças armadas detinham todo o aparato de defesa apropriado, os manifestantes possuíam apenas a si próprios e aos guarda-chuvas, herança de Hong-Kong, mas de forma visivelmente desproporcional mostraram-se ineficazes contra a força dos caminhões.

A partir desse dia, foram feitas arrecadações e mutirões para a aquisição de capacetes, óculos protetores e capas de chuva com intuito de se protegerem contra futuros confrontos entre os manifestantes com os violentos caminhões-tanque. 

Os registros das manifestações do dia 16, assim como as medidas de repressão adotadas pelo governo para dispersar os manifestantes se propagaram pelo mundo permitindo que mais pessoas soubessem o que de fato está acontecendo no país. Por exemplo no Brasil, a tag #whatishappeninginthailand entrou pela primeira vez desde o início das manifestações nos trending topics do Twitter, alcançando a posição de 4º Lugar.

Definitivamente os vídeos que mostraram a população correndo desesperada dos caminhões foram uma das cenas mais chocantes e arrepiantes dos atuais protestos. Por último, desde esse dia um boato circula entre os tailandeses sobre a aprovação pelo rei do uso de balas de verdade contra os manifestantes, uma vez que até então são usadas apenas balas de borracha. Até o momento não há registros de mortes nas manifestações. 

Dia 17 ao 20 – Mais do Mesmo 

No intervalo entre sábado (17) e terça-feira (20), a Tailândia permaneceu com o mesmo clima de convulsão política e de insatisfações explicitadas por meio das passeatas, discursos e uso dos três dedos. Nesse período também foram realizadas mais prisões em massa, não apenas de manifestantes, mas também de jornalistas, como um repórter do jornal Prachatai, que após horas de detenção e pagamento de fiança foi liberado. 

A censura aos veículos de informação foi intensificada, sobretudo aos jornais virtuais como The Standard, The Reporters, and Prachatai e canais de TV. Nesse período, as lives comumente realizadas por esses sites, que realizam a cobertura das manifestações e  traduzem simultaneamente para o inglês os discursos e as notícias recentes, diminuíram como medida de segurança. 

No entanto, na contramão do aparente “retrocesso” por parte dos manifestantes, a comunidade internacional começou a falar sobre o assunto, como a Comissão dos Direitos Humanos da ONU que no dia 17 discursou sobre a atual situação da Tailândia, referindo-se à atuação do governo como um atentado contra o direito básico de qualquer cidadão: a liberdade de expressão, atualmente o vídeo publicado pelo Instagram da BBC Tailândia possui mais de 1 milhão de visualizações. 

Dia 21 (Quarta-Feira) – Um pedido formal

Logo de manhã pôde-se notar uma movimentação maior aos arredores da Casa do Governo, lugar onde se localizam os escritórios do primeiro-ministro, o ex-militar Prayut Cha-ochan, e seus ministros. A segurança ao redor do local foi intensificada com a construção de barricadas e também arame farpado, a fim de impedir que algum dissidente político invadisse o prédio e colocando em risco a vida de alguém (uma prevenção que tem se mostrado no mínimo inútil, já que desde o início todas as passeatas tiveram caráter pacífico). 

Diferente do habitual, a passeata que ocorreu na quarta-feira em Banguecoque teve como ponto de encontro o Monumento da Vitória, erguido em 1941 após a vitória tailandesa na guerra Franco-Siamesa que disputou territórios e poder de influência na Indochina. O destino também mudou, desta vez os manifestantes caminharam em direção à Casa do Governo, local em que se localizam os escritórios do primeiro-ministro e seus ministros. 

Pela primeira vez após o fatídico dia 16 os caminhões-tanque reapareceram, mas não foram utilizados, porém agora todos os manifestantes estavam devidamente “equipados”. 

Prayut discursou em um canal de TV estatal e basicamente relembrou a existência do “Estado de Emergência” no qual se encontrava o país, bem como pediu o fim das manifestações, além da paciência para que reivindicações fossem atendidas pelo Parlamento.

Algumas horas mais tarde, após percorrerem um considerável percurso em direção à Casa do Governo, os líderes dos protestos entregaram uma carta gigante aos comandantes da polícia em que estava escrito um acordo: se o primeiro-ministro aceitasse renunciar, as manifestações cessariam. O prazo dado ao líder foi de três dias e durante esse intervalo de tempo não foi marcado oficialmente nenhum grande protesto, porém eles aconteceram isoladamente. O prazo para a resposta do governo se encerrou hoje. 

Dia 22 (Quinta-Feira) – Medo ou Estratégia?

Além da presença de manifestações pró-democracia e do retorno efervescente dos camisas amarelas provocando tumultos e violência, decisões importantes foram tomadas pelo primeiro-ministro. 

Prayut Chan-ocha decidiu revogar o Estado de Emergência após uma semana de vigência. Há muitas especulações sobre o motivo dessa decisão, mas o que nos compete dizer é que com isso as manifestações contra o governo deixaram de ser ilegais, para que alguém seja preso é necessário um mandado e a censura à imprensa foi dissolvida. No entanto, muitas pessoas ainda estão presas, dentre elas três principais lideranças como Panupong Jadnok, Parit Chiwarak ePanusaya Sithijirawattanakul. Hoje saiu uma nota sobre a decisão do Tribunal em negar a soltura deles mediante o pagamento de fianças.

Dessa forma, desde a prisão dos 21 ativistas no dia 16, muitos manifestantes seguram cartazes com imagens de todas as pessoas que ainda estão presas e gritam frases de apoio aos presos e pedidos para que sejam soltos.

Além disso, outro edital foi publicado por especialistas em direitos humanos chamando atenção do mundo e pedindo para que o governo da Tailândia pare de perseguir e cercear os direitos básicos de sua população como a liberdade de expressão. 

Dia 23 (Sexta-Feira) – Encorajamento Real 

Não tão relevante para o compreendimento das manifestações porém factual, na sexta à noite o Rei e a Rainha parabenizaram pessoalmente um monarquista que enfrentou os manifestantes pró-democracia segurando um quadro do casal real nas mãos, enquanto cumprimentava o apoiador o rei disse: “Muito valente. Muito valente. Muito bem. Obrigado”. 

Perspectivas?

O prazo para a resposta do primeiro-ministro acaba hoje, aliás já acabou, pela diferença de fuso-horário agora já é dia 25 na Tailândia, dessa forma as manifestações retornarão com força e é impossível dizer o que ocorrerá nos próximos dias. A Equipe da Boys Love Brasil apenas deseja que as reivindicações dos manifestantes sejam atendidas e que a democracia possa vigorar no país novamente.

Lembretes

Foi criada uma página de apoio aos manifestantes por páginas de conteúdo BL latino-americanas, como a BLB. Ela se chama “Latin Americans Support Thai Democracy” (do inglês, latino americanos apoiam a democracia tailandesa), o mesmo nome da tag utilizada para demonstrar o nosso apoio. Se você quer ficar atualizado sobre tudo o que acontece no país relacionado aos protestos siga as contas do Twitter, Facebook e também do TikTok, em breve serão postados vídeos curtos explicando de forma mais sucinta sobre as manifestações. 

Além disso, há um vídeo que a BLB produziu em parceria com o Aiigo! Doramas, que conta a trajetória política da Tailândia de maneira bem didática para quem ainda está por fora de toda a situação. 

Por último, foi criada pelos tailandeses uma petição que será enviada para o governo alemão e visa fazer com que o rei da seja considerado “persona non grata“, diplomaticamente o título significa impedir que o monarca possa continuar a visitar a Alemanha com frequência, como fez grande parte da pandemia. Atualmente a petição ultrapassa 200,000 assinaturas, caso você ainda não tenha assinado, clique aqui e deixe a sua contribuição. É válido lembrar que o link foi banido da Tailândia no mesmo dia em que foi criado.

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2 Comentários
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agabriel90

É triste de ver como o ser humano pode ser feio, uma sociedade construída por uma maioria com sede de poder, e vontade de subjugar. Peço a Deus por um futuro de paz, e apesar dos passar dos anos as coisas só pioraram, eu permaneço com fé. Força e vibrações positivas para o povo tailandês! 🤗✊

Sergio Dias

Essa ação da Boys Love Brasil e de Kawê Oliveira em parte restaura minha fé no ser humano.
Muito bom esse retrospecto, muito bem feito.
Pode não parecer, mas nosso apoio é um alento para o povo Thai. Gente do bem continua a apoiar.
Obrigado, obrigado!


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