As questões LGBTQIA+ na abordagem pastoral – Entrevista com Pe. Danilo Pena

As questões LGBTQIA+ na abordagem pastoral – Entrevista com Pe. Danilo Pena

Boa tarde, galere!

Para finalizar esse mês do Orgulho, venho trazer para vocês com parceria da @amanda , uma entrevista com o Padre Danilo Pena.

Já citei ele na minha matéria sobre o “aumento do preconceito incitado pelo avanço religioso/conservador” e hoje vocês terão a oportunidade de conhecer mais o ponto de vista pastoral nessa entrevista.

Pe. Danilo Pena abordando sobre as questões LGBTQIA+:

A sexualidade está referida ao mistério da pessoa, portanto, é tema de profundo interesse da Igreja, pois diz respeito à vida e à felicidade de cada ser. É uma dimensão antropológica profunda, íntima e própria da configuração humana em seu aspecto originário. Quando não refletida, a vivência da sexualidade transita entre os extremos do falso espiritualismo ao hedonismo (determinação do prazer como bem supremo) ilusório. Nenhum destes extremos representa uma saudável compreensão de sexualidade humana integrada e frutuosa.

Em sua encíclica “Deus caritas est”, o então papa Bento XVI afirmou que o humano não pode ser concebido sem a sexualidade, ou seja, sem o eros, que implica o corpo, a philia, a dimensão da amizade,e o ágape, que abre o amplia para uma relação transcendente e complementar às duas primeiras1. Mas quando o assunto é especificamente o “eros”, que aborda também o sentido sexual, a questão do prazer e os limites da genitalidade, abre-se um abismo cheio de melindros e moralismos, não só para a Igreja, mas para outros setores da sociedade, como a escola e a política. É neste cenário de muitos “achismos” que geralmente a homossexualidade é abordada.

Uma visão mais alinhada à pastoral católica que podemos assumir é de que a homossexualidade não é somente, nem exclusivamente um fenômeno sexual, mas é a condição antropológica de um ser pessoal (GOMES e TRASFERETTI,2011). Assim, a compreensão da homossexualidade, para além do comportamento sexual, trata-se de uma dimensão constitutiva e que não traz em si nenhum traço de patologia somática ou psíquica e nem o torna isento delas.

Nos ambientes religiosos (católicos e não católicos), a homossexualidade pode ser vista em duas perspectivas: uma tradicional-conservadora e outra progressista-liberal. Na conservadora há um consenso geral de que os atos homossexuais são um mal intrínseco e, por isso, nunca uma opção moral aceitável; já na segunda perspectiva há um consenso de que a homossexualidade é uma condição ou orientação humana e não é incompatível com a vivência social. A esse respeito, o teólogo espanhol Marciano Vidal lembra que a Bíblia fala da homossexualidade em um contexto impossível de transpor para avaliações atuais da sexualidade. Nos textos bíblicos quando o tema aparece faz referência sempre a comportamentos homossexuais em contextos desviantes. Quanto a Jesus, há um silêncio total sobre esse assunto (mesmo sendo uma prática radicalmente condenada pelos rabinos). Justifica-se isso, pela própria abordagem mais global, que o Cristo utilizava para enfocar os problemas humanos.

Quanto ao catecismo, cuja leitura obtusa gera uma sério de posicionamentos maniqueístas sobre o tema, precisa ser melhor compreendido. O Catecismo foi redigido para compendiar o que a Igreja ensina e precisa ser guardado por todos os fiéis, como um ponto básico de referência. Nessa esteira, o pesquisador em psicologia e religião Edenio Valle ressalta que este importante parâmetro doutrinal do catolicismo não diz tudo sobre os temas que aborda, mas quer resumir o essencial. No caso da homossexualidade, ele não entra em questões ainda em fase de esclarecimento. Apenas repisa os pontos de doutrina. Ele inicia com uma espécie de definição da homossexualidade. Mas do próprio catecismo pode-se intuir que a homossexualidade tem uma origem psicológica ainda sem explicações satisfatórias. Além disto, se revestiu das mais variadas formas ao longo dos séculos, de acordo com as distintas culturas. A cultura de hoje lhe conferiu algumas características próprias de nosso tempo. Papa Francisco, com um movimento de abertura pastoral, tem demonstrado muita atenção a tais questões existenciais.

Podemos indicar tal impulso de uma “Igreja em saída”, acolhedora, e que integra em sua vivência minorias sexuais para a caminhada da fé e a vida pastoral, a coletiva de imprensa dada em outubro de 2016 aos jornalistas que acompanharam a visita do Papa Francisco, primeiro à Geórgia e depois ao Azerbaijão, entre os dias 30 de setembro e 2 de outubro, onde o pontífice apontou qual deve ser a atitude da Igreja para com as pessoas transexuais: “Acolher, acompanhar, estudar, discernir e integrar. Isto é o que faria Jesus hoje”2. Esse fato ilustra como deseja caminhar a pastoral católica do século XXI: indo ao encontro do reconhecimento de todos e todas, pois, “cada pessoa, independentemente da própria orientação sexual, deve ser respeitada na sua dignidade e acolhida com respeito, procurando evitar qualquer sinal de discriminação e, particularmente, toda forma de agressão e violência” (Amoris Laetitia, 250). A Igreja católica, ao declarar sua opção preferencial pelos pobres, faz também sua opção por aqueles que, em função da exclusão social, são ainda vulneráveis e vítimas violação de seus direitos. Neste campo, a chamada teologia prática possui grande responsabilidade de reflexão e ação.

A Igreja tem muito a amadurecer e contribuir nessa discussão. Passados mais de cinquenta anos no Concílio Vaticano II e mesmo diante de uma teologia mais atenta aos sinais dos tempos e às novas configurações da vivência humanos, ainda existem dimensões fronteiriças e de difícil acesso, tanto à teoria como à prática eclesial. O impreciso diálogo com as expressões da sexualidade humana exemplifica bem essa realidade.

Bom pessoal, espero que vocês tenham gostado. Algumas frases que foram citadas na entrevista pelo o Padre, ele nos deu as referências, caso tenham curiosidade para ler mais um pouco sobre o assunto.

Espero que tenham gostado, agradecemos a leitura e continuem atentos a BLB para ficarem atualizados. BJXXX.

Idealizado por: Prika
Organizado por: @amanda
Entrevistado: Padre Danilo Pena.

Referências:

VALLE, Edênio. A Igreja Católica ante a Homossexualidade: Ênfases e deslocamentos de Posições. . São Paulo: Paulus. Revista de Estudos da Religião, n. 1, 2006, p. 153-185. Disponível em: . Acesso em 16 mar.2012.

VIDAL, Marciano. Sexualidade e condição homossexual na moral cristã: História e Atualização. São Paulo, SP: Santuário, 2008.

1 Cf.: BENTO XVI. Deus Caritas EstSão Paulo: Paulinas, 2005, n. 3-5

2 In: www.arquidiocesedesaopaulo.org.br/papa-no-aviao-acolher-a-todos-como-faria-jesus

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