A Representatividade Negra LGBT no Cinema

A Representatividade Negra LGBT no Cinema

Filmes como Moonlight ainda continuam sendo exceção no cinema não somente no cenário brasileiro, mas também internacional. A questão é que grande parte dos filmes que abordam a temática LGBT preferem reproduzir histórias clichês comumente já trabalhadas de forma superficial a optarem por outros enredos de maneira mais aprofundada.

Há muitos argumentos para essa escolha, um deles é o mercado comercial cinematográfico, ou seja, diretor algum irá produzir um filme sobre uma história que ninguém irá assistir. Mas o grande impasse: como mudar a conjuntura atual? Bem, há muitos caminhos que vão desde o investimento em curtas-metragens (pequenas produções ou produções amadoras) até a própria democratização do acesso ao cinema.

Já que, por exemplo, um jovem oriundo da periferia não tem a mesma frequência nas salas de cinemas e a outros veículos culturais do que outro com condições financeiras mais aprazíveis.

Além disso, sobre a adesão de telespectador, é fato de que muitas histórias que abordam a temática em questão apresentem algumas características comuns, como: enredo majoritariamente, senão, completamente branco; discorre sobre casal gay; são dirigidos por homens heterossexuais; possuem finais infelizes. 

Mas qual o problema nisso? 

O grande problema é a falta de representatividade. Vamos por partes.

Falando especificamente sobre a questão dos negros em filmes LGBT, a quantidade de produções em que tais personagens aparecem sendo protagonistas é muito pequena. Ademais, quando são representados, algumas obras não têm a capacidade de abordar a realidade de um indivíduo negro e não heterossexual, isto é, as dificuldades que ultrapassam a intolerância sexual, porque agora o problema não é só a sua sexualidade, mas sim a sua cor. 

Então, quando uma obra decide falar sobre homens e mulheres LGBTs, é necessária a abordagem sobre os reais problemas que essas pessoas enfrentam no seu cotidiano, e não são poucos. Muito disso se dá pelos estigmas deixados pela sociedade escravocrata, teorias contemporâneas de superioridade de raças e também ao racismo que permanece na mentalidade de muitos na atualidade e essa característica nem sempre se apresenta velada. 

De acordo com uma pesquisa realizada pela GLAAD (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation) em 2016, dentre os 23 personagens LGBTs presentes em produções cinematográficas, apenas 20% são de etnias não-brancas. Pela mesma pesquisa ainda é possível confirmar que, dentre os 23, mais da metade permanece menos de um minuto na tela. 

Outra questão é o favoritismo por diretores e roteiristas pela letra G (que se refere aos gays), da sigla LGBT. Essa preferência traz outros debates sobre a carência de produções sobre outros membros do movimento como as lésbicas e os transsexuais, este último que muitas vezes é retratado de forma bastante superficial.

Sobre a representatividade Lésbica, em especial, grande parte das produções (brancas na maioria das vezes) é bastante sexualizada e retratada sobre olhares que se compara à pornografia. Esse procedimento também é muito comum em obras Gays, porém em menor quantidade. Essa visão possui uma carga bastante estereotipada e preconceituosa, no entanto, é de se esperar, já que se classificava a homossexualidade como patologia até meados da década de 1990. 

No entanto, é necessário ser combatida e remodelada de modo que consiga captar as verdades nas emoções dos indivíduos (gays, lésbicas, transsexuais) e, uma maneira interessante de atualizar esse tipo de comportamento seria a inserção de diretores, roteiristas que realmente façam parte do mundo LGBT, de modo que a partir de suas experiências pessoais, consigam transmitir a mensagem e a visão que a trama fique mais próxima o possível da realidade e as produções tornem-se mais verossímeis. 

Segundo uma pesquisa realizada pela UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro, das produções feitas de 2002 até 2013, apenas 2% foram dirigiram ou produziram por negros no Brasil.

Além disso, é intrigante o fato de que muitos desfechos de obras LGBT acabem com tragédias, de modo que aparente que casais homoafetivos não possam ter finais feliz. 

Dessa forma, é infeliz a maneira como hoje o cinema retrata o segmento LGBT, sobretudo negro e que também evidência que está longe do real. É uma luta grande, mas que se houver coesão, entendimento e um pouco de discernimento, a gente pode um dia democratizar e ampliar o número de produções.

Não é uma tarefa fácil porque tem muita coisa por debaixo, mas tudo precisa de um primeiro passo, você está disposto a isso? 

Resenha Moonlight – Sob a Luz do Luar

Como falado acima, Moonlight é uma exceção no cinema, o filme onde temos como protagonistas e coadjuvantes pessoas negras está livre de idealizações. Chiron é um menino gay, negro, periférico e sem pai, seu único familiar é a mãe que é dependente de drogas. Por ser gay, sofre muito bullying na escola, chegando a ser perseguido e apanhar muitas vezes por meninos de sua turma.  

Podemos notar quê, infelizmente, o preconceito é reproduzido até por crianças que veem adultos tendo atitudes preconceituosas, afinal, não nascemos com nenhum tipo de preconceito, os seres humanos adquirem todo esse ódio quando são ensinados a odiar tudo aquilo que é “diferente” e fora do padrão.

Em mais um dia voltando da aula, ele é obrigado a correr para não apanhar de outras crianças, enquanto fugia, ele passa na frente de uma biqueira, onde o traficante Juan estava, Chiron consegue se esconder em um apartamento abandonado ali perto, os meninos tentam arrombar o apartamento mas não conseguem, tempos depois, Juan aparece e tira Chiron do apartamento, leva a criança para comer em uma lanchonete, o menino se mostra fechado e não conversa com ele, sem ter como levar a criança para casa – pois ela não dizia onde morava, Juan leva Chiron até Teresa, sua namorada. 

Teresa consegue conversar com Chiron e o menino vai para casa. Mal sabiam eles, que Chiron, Teresa e Juan acabariam se tornando uma família aos poucos, a criança que sofria por não ter nenhuma pessoa que de fato, cuide e dê todo o amor que merecia, encontra esse afeto com Teresa e Juan, que ensinam muitas coisas a Chiron. O que me fez assistir esse filme foi um print de uma das conversas que Chiron teve com Juan. 

É extremamente importante que as crianças possam ser aceitas por seus pais e infelizmente, ainda é comum isso não acontecer, inclusive, a mãe de Chiron não demonstra aceitar seu filho, do jeito que é.

Durante a época de escola, Chiron tem um amigo chamado Kevin, o único de seus colegas que o tratava bem, Kevin demonstrou se relacionar com mulheres e na adolescência chegou a trocar um beijo com Chiron na praia, apesar de não ter sido falado, suponho que ele possa  ser bissexual. Infelizmente, a amizade na adolescência não durou muito, com medo de sofrer os mesmos tipos de agressão que Chiron, Kevin procura não demonstrar a ninguém a atração por seu amigo. 

A amizade dos meninos acaba, quando o “líder” dos meninos que agridem Chiron, desafia Kevin a bater no amigo. Cansado de não reagir, Chiron reage às investidas de Kevin, contudo, apanha muito. No dia seguinte, chega na escola e agride o “líder” que tanto lhe surrava, tanto na escola, como fora dela. A atitude de Chiron fez com que ele fosse mandado para um reformatório e lá, o contato com Kevin e qualquer outro da escola, acaba.

Mas o início do que poderia ser um relacionamento entre eles não acabou com a detenção de Chiron. Anos depois eles se reencontram, adultos, maduros, os tempos de escola já haviam ficado para trás. Mesmo adulto, Chiron era atormentado por seu passado, e tantos anos depois, ele ainda não havia tido nenhum tipo de relação sexual com alguém a não ser o beijo trocado com Kevin.

Durante a história, podemos notar que ele ainda tinha pesadelos que o levavam de volta para a sua adolescência, com isso, é possível notar o quanto as agressões físicas e psicológicas podem afetar uma pessoa, mesmo depois de anos. Chiron se mostra fechado quanto a ajuda psicológica ou até mesmo a conversar com alguém, para que possa desabafar e assim tentar tirar os fantasmas do passado.

O filme que pode ser encontrado na Netflix, apesar do filme não ser estrelado por nenhuma estrela do cinema, isso não significa que o elenco não tenha sido maravilhoso e cheio de atores que tiverem uma excelente atuação. Moonlight junto aos seus atores, recebeu muitos prêmios em diferentes premiações, citarei suas premiações do Oscar 2017: Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante com o ator Mahershala Ali -que interpreta Juan, premiado também com o Melhor Roteiro Adaptado os responsáveis por esse feito foram Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney.

Referências

https://g1.globo.com/pop-arte/oscar/2017/noticia/moonlight-e-escolhido-melhor-filme-do-oscar-2017-apos-confusao-de-apresentadores.ghtml

Bixa preta: cineastas discutem a representação negra no cinema LGBT

Uma parceria do colunista Kawê Oliveira com a colunista Vika Gama.

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[…] foi publicado uma matéria em que falamos sobre a falta de representatividade negra no cinema, então, vim aqui para indicar mais um filme em que temos um protagonista lgbt e negro. Green Book: […]


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