A cultura do cancelamento e suas consequências

A cultura do cancelamento e suas consequências

Nos últimos meses, o termo “cancelamento” tem ganhado uma conotação diferente do usual, não é novidade para ninguém a ininterrupta criação de “jargões” virtuais utilizada pelos internautas nas redes sociais, seja por um meme, um vídeo ou uma publicação qualquer.

Porém, de tempos para cá, presenciamos a emergência de uma nova cultura, denominada “cultura do cancelamento”.

Propósito

Essa “cultura” tem o propósito de fiscalizar o comportamento dos usuários e apontar, de acordo com suas convicções, aquilo que considera ou não correto. Se você, por exemplo, fizer um comentário, compartilhar ou curtir algo que o “júri” reprovar, está sujeito, assim como um julgamento, a sofrer sanções severas por isso.

As vítimas são diversas, claro que as figuras públicas como digitais influencers são os mais vulneráveis, mas engana-se quem acredita que “pessoas comuns” não podem ser alvos dos cancelamentos.

Mecanismo

O primeiro passo consiste em identificar uma conduta que não seja condizente com as convicções dos “canceladores”, depois de identificada, inicia-se uma série de publicações, como comentários negativos a respeito dessa pessoa e posteriormente a promoção de seu esquecimento por meio de “unfollows” e o fim do consumo de qualquer conteúdo produzido por ela.

Num primeiro momento, é possível imaginar a cultura do cancelamento como algo positivo, uma vez que põe em discussão a visão equivocada sobre a internet ser um local de regalia extremada, em que publicar tudo o que pensa (ofensas, etc.) sem sofrer qualquer tipo de punição.

Contudo, ao mesmo tempo, o método utilizado tem se mostrado ineficaz, porque evoca outro debate, desta vez sobre o crescimento do poder paralelo dos “tribunais virtuais”. Assim, tal cultura tende a valorizar apenas uma opinião, aquela considerada única e exclusivamente “correta”, impedindo, portanto, a expressão de uma visão diferente, ou seja, também está em discussão os limites da liberdade de expressão.

Acontece que essa prática, cada vez mais, tende a se enraizar em nossa cultura, o que pode ser um problema.

Efeitos

Imagem: Reprodução

As implicações disso são inúmeras, vão desde a valorização cada vez maior do movimento, assim como o crescimento da corrente inversa, isto é, a valorização de indivíduos que se comportam de acordo como o esperado – as fadas sensatas, o que também é um obstáculo, porque é criada uma imagem idealizada para pessoas que eventualmente se sentem sufocadas devido à pressão que carregam e pelo medo de cometerem deslizes e também sofrerem o cancelamento.

Além disso, gostaria de apresentar três exemplos da ineficiência dessa atitude:

O cancelamento não é didático

Os atuantes simplesmente se deparam com algo que não seja agradável aos olhos, cancelam e seguem em busca do próximo sem o mínimo esforço de tentar mostrar ao cancelado o motivo, e o mais importante, como ele pode corrigir o seu erro.

O cancelamento não tem empatia

Pouco importa se você tem um emocional fraco ou é instável psicologicamente, o objetivo aqui é silenciá-lo.

Isso pode ser grave, porque se a vítima possuir algum tipo de enfermidade, como um histórico depressivo, as consequências podem ser catastróficas.

Apenas para elucidar, citarei dois exemplos emblemáticos, o primeiro, o caso da blogueira Alinne Araújo que tirou a própria vida em Julho do ano passado após ser cancelada na internet. O motivo? Após ter seu casamento cancelado apenas um dia antes do evento devido à desistência de seu noivo, a influencer digital decidiu casar-se consigo mesma, o que atraiu duras críticas.

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O outro caso ocorreu neste ano, desta vez no mundo games, Byron Bernstein, streamer norte-americano mais conhecido como “Reckful” é encontrado morto com suspeitas de suicídio em sua residência após ser cancelado nas redes sociais por ter realizado um pedido de casamento pelo Twitter a sua namorada e também jogadora Rebecca Tilts (popularmente conhecida como “Becca Tilts”), ambos estavam há mais de seis meses sem se encontrarem pessoalmente.

Reckful era depressivo e inclusive já havia gravado um vídeo em seu canal para falar a respeito.

O cancelamento é seletivo

Por último, a cultura do cancelamento é seletiva. Sabemos que há muitas pessoas que falam coisas ruins nas redes sociais, pelo simples fato, como já mencionei, de acreditarem na impunidade, porém “fazer justiça” com as próprias mãos tem se mostrado prejudicial, principalmente para as vítimas.

Ademais, o “cancelar” muitas vezes demonstra não só o desacordo com a opinião do outro, mas também o desrespeito e a intolerância, o que mais uma vez nos faz repensar: “há limites para a liberdade de expressão”?

Opinião

Há um tempo venho pensando sobre o assunto, inclusive cheguei a conversar com alguns amigos a respeito da correlação entre a “cultura do cancelamento” e a “inquisição moderna”.

Apenas para situá-lo, durante os séculos XV e XVI, retornou à Europa a Inquisição (popularmente conhecida na época como “Tribunal do Santo Ofício”), um mecanismo da Igreja Católica cujo objetivo era punir os hereges, isto é, aqueles que fosse contrário à doutrina religiosa, sob pena, em alguns casos, de morrerem queimados na fogueira.

A semelhança entre ambos os movimentos consiste nos cenários que provocaram, enquanto na Época Moderna havia um sentimento de “culpa”, gerado muitas vezes pela própria cultura e sociedade, extremamente religiosa e que causava nas pessoas a necessidade de denunciar aquele que pecasse ou cometesse heresias para que tanto a alma dele quanto do denunciador fossem salvas.

Ambientado para a nossa realidade, é algo parecido, já que o cancelador ao ver uma postura considerada inadequada, sente-se obrigado a apontar e expor, para que ele e o infrator possam seguir suas vidas tranquilamente.

Imagem: Reprodução/Twitter @euisadorasofia

Setembro Amarelo

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Referências

Vídeo sintético e explicativo sobre o “cancelamento”: Veja

Vídeo que exemplifica o “cancelamento” de pessoas comuns: BBC Brasil

Artigo sobre a cultura do cancelamento: UOL

Matéria sobre o caso de Reckful: Pleno.News e HuffPost Brasil

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