19 de Setembro: O Retorno do Poder ao Povo

19 de Setembro: O Retorno do Poder ao Povo

Como já previsto, o protesto do último fim de semana, realizado na capital tailandesa, Banguecoque, em prol da democracia, contou com um grande número de manifestantes. As lideranças mais otimistas especularam contar com aproximadamente 100 mil pessoas, o resultado, entretanto, foi muito maior do que o esperado. 

Neste texto será usada uma ordem cronológica dos acontecimentos e tentaremos discorrer sobre o máximo informações possíveis. Esse “resumo” é direcionado especialmente para aqueles que não puderam acompanhar as manifestações que ocorreram no último fim de semana que, aqui no Brasil, devido ao fuso-horário, ficou restrita ao sábado. 

Antes, se você por acaso caiu nesta matéria sem saber sobre o que está ocorrendo na Tailândia, faço alguns adendos, o primeiro, que assista a um vídeo explicativo sobre a política do país de pelo menos os últimos vinte anos lá no canal do Aiigo! Doramas, além disso, aqui no site, há mais duas matérias dedicadas ao assunto, a primeira, mais ampla, em que explicamos o motivo dos atuais protestos, a outra, uma breve atualização com informações pertinentes sobre pautas, acontecimentos e lideranças políticas. 

O Encontro

A hora e o local de encontro marcados para o protesto foram confirmados pelas lideranças do grupo pró-democracia “Free Youth” numa coletiva de imprensa na quarta-feira (9), às 14h na Universidade Thammasat (campus Tha Prachan) – localizada à oeste da capital. 

No entanto, dias após divulgado o local, a entidade acadêmica divulgou uma nota de que não iria permitir que nenhum ato político ocorresse dentro de seu campus. Logo em seguida, as lideranças reafirmaram que o local continuaria sendo a Universidade. É válido lembrar que, historicamente, a Thammasat é um lugar muito popular por sediar protestos estudantis, sobretudo políticos. 

No sábado (19), antes do horário previsto, as primeiras levas de manifestantes começaram a chegar, porém eles se depararam com um obstáculo: os portões fechados. Somente, ao meio-dia em ponto, os portões foram abertos, e os motivos são duvidosos, uma vez que há fontes que alegam ter sido após um diálogo entre as lideranças das manifestações com a reitoria da Universidade, outros, usando como prova gravações da abertura dos portões, afirmam que o campus foi invadido ilegalmente. 

https://twitter.com/KhaosodEnglish/status/1307185838552313857
Momento em que os portões foram abertos

Muitas caravanas foram realizadas para que pessoas de outras províncias do país, tanto a pé, como de barco, participasse do protesto. 

Durante a tarde, o restante do corpo das manifestações chegou, dessa vez, pôde-se perceber uma enorme presença de pessoas mais velhas e dos mais variados setores da sociedade, assim como estrangeiros, ativistas e claro, estudantes. Todos com suas pautas, insatisfações e pedidos, mas convergindo sobre uma ideal maior: a democracia. 

Como já mencionado na coletiva de imprensa realizada pela liderança, caso o número de manifestantes excedesse ao espaço disponível na Universidade, eles iriam até a região do “Sanam Luang”, local bastante próximo ao grande “Palácio Real”, onde reside toda a família real e que, no entanto, é um lugar restrito somente para pessoas “autorizadas”.

Como, evidentemente, o número de manifestantes foi muito superior ao esperado e essa região poderia ser acessada por meio da universidade, já que a zona divisória entre o Sanam Luang e o campus é o campo de futebol, não hesitaram em migrar até o local.

Presenças ilustres

Destaco aqui a presença de dois grupos importantes, o primeiro, o LGBT com a ilustre presença de Angele Anang, influenciadora e vencedora da Segunda Temporada de Drag Race Thailand. Em entrevista, ela disse acreditar que influenciadores e atores são o grupo que podem dirigir e impactar a sociedade, mostrando as reivindicações das pessoas. 

Comentou ainda sobre a colaboração entre o grupo LGBT e o movimento “Free Women” (“Mulheres Livres”), devido a não existência de uma liderança para o grupo LGBT. Afirmou ainda que é novo para a Tailândia a existência de paradas do orgulho, porque eles ainda não tem o “orgulho”. Os LGBTs precisam de direitos, tais como a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. 

“Este governo não se justifica mais. Eles não oferecem justiça igual a todos”; Grupo ou mulheres LGBT. Eles não são transparentes em todos os aspectos, como o orçamento anual. Estou aqui para dar a nossa contribuição para lhes dizer o que queremos. ”, Afirma Angele Anang.

O outro grupo que destaco são os “camisas vermelhas”, que reapareceram nesse último protesto. Apenas para pincelar, o movimento foi criado em 2010, quando os militares haviam retornado ao poder após arquitetar, junto dos monarquistas, um golpe judiciário, que destituiu Thaksin Shinawatra, o primeiro-ministro vigente. 

Com tendências à esquerda e a favor da democracia no país, os camisas vermelhas foram para as ruas manifestar com veemência exigindo novas eleições, embora trucidados pelos militares. Em 2011, foram convocadas eleições e mais uma vez o partido de Thaksin venceu, enfurecendo os militares e a oposição.

Apenas para efeito de curiosidade, a data do protesto do último fim de semana coincide com o dia em que o ex-primeiro-ministro levou o seu primeiro golpe pelos militares, em 2006. 

Calorosos discursos

Ao fim da noite, após a liderança do movimento estimar a presença de mais de 200 mil manifestantes, foi a vez deles falarem. 

Dentre todos, destaco o discurso do advogado e ativista dos Direitos Humanos, Anon Nampa, que durante a sua fala sobre a monarquia, tocou em assuntos bastante profundos e delicados, para não dizer “pesados”, que até a transmissão ao vivo, realizada pelo jornal “Bangkok Post”, que traduzia os discursos do tailândes para o inglês, foi mutada. 

Advogado e Ativista dos Direitos Humanos, Anon Nampa, discursando no sábado (19)

Além disso, foi ele quem revelou a grande “surpresa” do protesto, a “substituição” da placa que simboliza a Revolução de 1932 e o consequente fim do regime absolutista no país, em que o rei deixou de ter os plenos poderes sobre a nação e passou a se submeter a um grupo de parlamentares, caracterizando, dessa forma, o regime vigente até hoje no país, a monarquia parlamentar ou constitucional.

Por fim, o estudante e ativista, também líder do movimento, Parit Chiwarak, anunciou que no dia seguinte a passeata até a sede do governo, às 8h, estava confirmada. 

O absurdo “esquema de segurança”

Mas, quem estava armado até os dentes eram os militares. Um rígido esquema de segurança foi montado desde as primeiras horas do protesto, quando as pessoas ainda estavam indo para o local de encontro. Era possível ver, em todos os locais próximos ao evento, policiais à paisana, armados e fortemente defendidos, como se esperassem um ataque iminente por parte dos civis. 

Caminhões-tanque foram usados e um grande número de tropas foram mobilizadas. 

Ao anoitecer, após a confirmação de que haveria uma passeata até a sede do governo, barricadas foram montadas numa avenida que dá acesso ao local e um exagerado circuito de segurança foi montado ao redor do local, onde fica o escritório do primeiro-ministro, Prayut Chan-ocha. 

Contudo, na manhã do dia seguinte, os líderes afirmaram que a marcha estava cancelada e que eles iriam permanecer onde estavam. 

A “Placa do Povo” 

Em seguida, a “cerimônia” de fixação da nova placa foi iniciada, contando uma forte comoção de todos no local. 

A placa original desapareceu “misteriosamente” em 2017 quando o atual rei Rama X ascendeu ao trono. A réplica, que contém o desenho dos três dedos, símbolo dos protestos antigoverno, tem a seguinte frase impressa: “Neste lugar o povo expressou sua vontade: que este país pertença ao povo e não seja propriedade do monarca, pois ele nos enganou”.

A nova placa foi colocada na região do Sanam Luang, onde ocorreram os protestos, no entanto, a primeira havia sido fixada numa praça também no centro da capital, próximo à estátua do rei Rama V. 

**Apenas para atualizar, menos de 24 horas depois de fixada, a nova placa também foi retirada do local “misteriosamente”, provavelmente, a mando dos militares.

Por fim, antes de encerrar o grande protesto, Panusaya Sithijirawattanakul, outra líder do movimento, caminhou junto dos manifestantes até os escritórios do Conselho Privado, onde ficam os auxiliares do rei, para entregar uma petição contendo as 10 reformas da monarquia, uma atitude bastante ousada e inédita, uma vez que no país, segundo a seção 112 do código penal tailandês, é crime passível de prisão confrontar a monarquia. 

Dessa forma, o documento foi entregue até o chefe do Departamento de Polícia Metropolitana, Phakphong Phongphetra.

Às 9h30min, Parit, com auxílio de um megafone, agradeceu a todos que participaram do grande ato político, assim como convocou os presentes para o próximo, previsto para a próxima quinta-feira (24) em frente ao Parlamento, dia em que está marcada uma sessão para discutir algumas possíveis emendas constitucionais. 

Parit Chiwarak anunciando o fim do protesto, às 9:30, domingo (20)

“Não vamos parar até que o poder das trevas se vá”, gritavam as pessoas enquanto deixavam o local de protesto.

Além desse próximo protesto, em uma das redes sociais do “Free People”, outro movimento pró-democracia, foi publicado um convite para todos os tailandeses aderirem a grande paralisação geral prevista para o dia 14 de outubro, em comemoração ao levante de 1973 que conseguiu destituir um outro primeiro-ministro, também militar, e instaurar um governo democrático no país por três anos. 

Lideranças do protesto

Todas as informações e imagens desse post foram retiradas dos jornais tailandeses Prachatai, Bangkok Post e Khaosod English, que realizam a cobertura completa dos protestos, porém todo o conteúdo disponível está em inglês, no entanto, como essa manifestação conteve um caráter inédito, a mídia brasileira também escreveu, ainda que de forma resumida, a respeito, ou seja, é possível encontrar mais informações sobre o assunto em português, online e de forma gratuita.

Lembrete

Apenas para relembrar, a Boys Love Brasil mais uma vez aderiu a campanha de mobilização para o que está ocorrendo na Tailândia, desta vez denominada “#LatinAmericansSupportThaiDemocracy” (Latino Americanos Apóiam a Democracia Tailandesa), a campanha foi criada em parceria com outras páginas de conteúdo BL que também se sensibilizaram com a causa.

Assim, durante toda a manifestação, publicamos em nossas redes sociais informações e atualizações em tempo real, da mesma forma que também criamos uma página no Facebook e outra no Twitter para explicar toda a situação em português e espanhol para aqueles que não falam inglês.

Houve um excelente retorno, além de muitas mensagens de tailandeses que agradeceram o apoio e de latino americanos que tiveram a consciência da dimensão da atual situação política do país.

Se você gostaria de ajudar nessa campanha, entre em contato conosco, lute pela democracia também. Se informe, compartilhe, apoie. 

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